segunda-feira, 23 de março de 2026

Do mal, o menos

 

 




Do mal o menos
repetia
baixinho
o homem que alimentava pombos
com migalhas de pão seco.

 

As aves vinham
confiantes
como se cada migalha fosse a promessa
de que o mundo
ainda podia ser simples.

 

Ele observava o voo breve
as asas
que riscavam o ar
como quem escreve
sem tinta
uma esperança discreta.

 

E
enquanto o pão se desfazia
entre os dedos gastos
pensava que talvez a vida
fosse isso mesmo.

Um gesto pequeno
um cuidado anónimo
um instante de paz
no meio do ruído.

 

Do mal o menos
repetia.

 

E
naquele murmúrio
cabia tudo o que ainda o mantinha de pé.






BL
23.03.26





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