sábado, 30 de setembro de 2023

Espiral





Sou vento.

Sou plátanos.


Espirais 

em amarelo,

ocre,

sangue.


Redemoinhos

de castanho

e asfalto.


Turbilhão

de brancos

azuis

e cinza.


Sou ébano,

marfim.


Sou Abel

ou Caim.


Sou guerra,

sou paz.


Sou eu

que

sem saber

não sei de mim.




BL

13.11.1989


quarta-feira, 27 de setembro de 2023

À margem do tempo

 






És talvez o silêncio do poema
a conter-se
ao fundo dos olhos
o reflexo da pedra num espelho convexo
o verso esmagado pela demora
do tempo.

És talvez um eco
um murmúrio do vento
a margem sombria de um regato em viagem
a face traída
do sentimento.

És talvez a minha voz ausente
a imagem esquecida
num hiato
a linguagem fria do presente
o desdém da palavra a gritar invernia
num tempo que morre
seco
dia a dia
hora após hora
lá fora.


BL








terça-feira, 26 de setembro de 2023

Nas tuas palavras








Nas tuas palavras

o lado de dentro

para o que resta de mim.


Olho a janela

e procuro um domingo

as ruas

a luz

                               de um domingo                              

do outro lado

do tempo.


No meu corpo

guardo fotos

tempos sem fim

e é-me difícil respirar

neste tão pouco

que sobra de mim.


Nas tuas palavras

a vontade de ser tempo


o silêncio

da minha crueza


a certeza

de a perder de vista


por detrás da opacidade

da minha lúcida 

insanidade.



BL

01.06.11













quinta-feira, 14 de setembro de 2023

Janelas de sombras

 







segura para ti o tempo

dizias


e na parede

desenhavas janelas de sombras


guardiãs do teu olhar limpo

e dos sonhos mais puros


memórias de vozes

histórias de silêncios.



BL

13.09.23












sábado, 9 de setembro de 2023

Um vulto

 









Queriam crescer

as flores

entre as pedras

e a terra ressequida.


O céu era azul

o olhar também.


E para lá das pedras

para além da terra-túmulo


caminhava o medo

a procurar


abrigo


num olhar azul

perdido entre escombros

e céu sem horizonte.


Um vulto

nítido

no centro da mira.


E um ponto

vermelho

à espera.


BL

09.09.23












terça-feira, 29 de agosto de 2023

Margens

 




Nada me trará as horas

de ambrósia e mel

soltas nas margens

de um rio sem tempo

labirintos de pele     

em que perdida de mim

o fogo me prendia

e eu existia.


Uma estrela cadente rasga-me a memória 

e acende-me a dor do fogo das águas.


Na margem que é minha

procuro um abrigo

no espanto esquecido

do rio que passa.


Na margem que é tua, a alvura da noite

derrama luares, perfumes, sabores.


Nada me trará as margens

de um tempo sem horas

nas dunas desertas

da margem que é certa.


Ensaio um sorriso e a margem que é certa

envolve-me e devolve-me

o sorriso perfeito

e é com ele que te digo

que esta noite o meu sorriso

irá dormir contigo.



BL

17.05.10








Palavras cor-de-musgo

 





Há as palavras cor-de-musgo

que irrompem de súbito

na berma do caminho. Libertam aromas

selvagens

eixos frágeis

quase trevas

que se prendem às escadas do tempo.


Ressalvo a hesitação da cor

regresso ao sol interior

que molda as pontes à poesia

para deambular pelos cristais da infância

saldar as contas com os ecos

que hibernam

sem cobranças

na submersa claridade das lembranças.





BL

19.05.10