terça-feira, 9 de setembro de 2025

Mas tu vieste

 







Fui sombra
antes de ser nome.
Caminhei entre vozes que não sabiam chamar-me.
O chão recusava os meus passos
e o céu
tão alto
parecia feito só para os que nunca caíram.

 

Mas tu vieste
com o tempo nas mãos
e o silêncio nos olhos.


Não disseste nada.
E foi tudo.

 

A tua presença era ponte
era travessia
era o sim
que o mundo me negava.

 

Deitaste-me entre as árvores
onde o vento sabe segredos antigos.


E ali
entre o murmúrio das folhas
aprendi que viver
é aceitar morrer um pouco
sempre que o amor nos chama.





BL

09.09.25




segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Última conjugação

 






Parto para o silêncio último
a morada sem janelas.
Interior.
Rocha.

 

Devagar
recolho os ecos

dos versos

que não escrevi.


Versos em espiral
os que amaram em voz baixa
os que se dobraram ao tempo.

 

Aceito as vírgulas

que me suspendem o fôlego
as sílabas que me lavam

o sal do sangue.

 

Sou agora
o intervalo entre dois verbos.


Sou
o poema que se desfaz
na boca do vento.




BL

08.09.25






domingo, 7 de setembro de 2025

Quando os corpos calam as estações


 






É assim o mapa da ausência.


Desenha caminhos

com dedos trémulos
mas esquece

os nomes das cidades.

 

É assim o corpo sem norte.

 
Carrega o peso das estações
sem saber onde começa o inverno.

 

É assim o corpo sem casa.

 
Veste paredes

como quem procura abrigo
mas encontra somente o frio de móveis esquecidos.

 

As mãos procuram o que já foi dito
mas apenas encontram o eco dos gestos.

 

É assim o tempo do corpo.


Marca os dias com rugas suaves
e os sonhos com calendários rasgados.

 

É assim o corpo do tempo.

 
Na penumbra das horas quebradas
cultiva silêncios

como flores secas
e espera que a memória os regue.





BL

07.09.25





sábado, 6 de setembro de 2025

A sombra do vento na cortina da manhã

 




O vazio dança entre as paredes.

 

A luz a entrar

oblíqua

pela cortina rendada.

 

O ranger do soalho conta histórias
e o relógio murmura os minutos

com voz de avô.

 

O eco de passos que já não voltam
e o aroma quente que abraça os móveis

 

O café a fumegar

na chávena de porcelana gasta.

A memória da tua mão

a servir-me
e o teu riso

a morar no silêncio da casa.

 

O cheiro de domingo

[bolo de laranja e café forte]
a cozinha cheia de sol

e saudade.

 

A saudade.
Um bordado antigo

no encosto da cadeira.





BL

06.09.25





quinta-feira, 4 de setembro de 2025

Regresso

 





Morri três vezes
antes de aprender o contorno da tua ausência.


Fui terra

fui pedra

fui silêncio.


E tu

com mãos de luz
vieste buscar-me.

 

No fundo do chão
onde o tempo não respira
a tua voz sibilava
como vento entre raízes.


E eu

cega de mim
vi o teu rosto
antes de abrir os olhos.

 

Deitaste-me no alto
onde o mundo se curva

para escutar.


As pedras da serra
guardaram o meu corpo
como quem guarda promessa.

 

Cantaste-me ao ouvido
com a voz que só os mortos reconhecem.


E eu

renascida
não temi perder-te outra vez.




BL

04.09.25





quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Apenas estão

 





Quando o sol me chama
numa manhã de inverno
as árvores

despidas

respondem primeiro


com os seus braços nus
erguidos em prece

ou em protesto.

 

Não há folhas a esconder segredos
nem sombras

a disfarçar o tempo.


Só o tronco

a pele rugosa
e o silêncio

a crescer entre os galhos.

 

Elas não pedem nada.


Apenas estão.
Como quem já aprendeu
que a beleza também mora
naquilo que se perdeu.

 

E eu

olho-as

assim
a sentir a força que existe no despojamento.


E sinto que talvez o sol me chame
não para me aquecer
mas para me lembrar
que existe vida

mesmo na espera.




BL

03.09.25





segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Ajuda-me a ordenar este caos

 





Começo pelo telhado
porque é lá que o céu me toca.
Lanço as telhas ao vento
e elas pousam como pássaros
à espera do teu regresso.


Não sigo planos
não obedeço à gravidade das ideias.
Primeiro o que sinto
depois o que faço
e só então [talvez] o que penso.


As vigas vêm depois
como braços que aprendem a abraçar.
A base sobe devagar
como quem aprende a ser chão
depois de ter sido nuvem.


As leis do mundo não me servem.
As minhas estão por escrever
com tinta feita de instinto
e papel arrancado ao tempo.


Construo ao contrário
porque só assim posso ser inteira.
Começo pela casa que me protege
e acabo no rascunho que me revela.


Se vieres
traz contigo o silêncio e a coragem.
Ajuda-me a ordenar este caos
onde tudo está fora de lugar
mas tudo me faz sentido.






BL

01.09.25