sábado, 23 de agosto de 2025

As horas dormem com os olhos abertos


 





Esta noite

decidi nadar no céu.

 

 As nuvens eram feitas de vidro

e um peixe

com asas de papel

ensinou-me a respirar palavras.

 

A cidade flutuava

cheia de portas sem casas

e janelas que mostravam memórias

de quem nunca existiu.

 

No quarto

em espiral

as paredes conversavam baixinho

em dialeto de sombras

e o chão pedia-me para andar de costas.

 

Vi-me ao espelho.

Era uma árvore com corações pendurados

cada pulsação um poema esquecido

que o vento lia em voz alta.

 

E quando acordei

sob um teto de aurora boreal

soube que os sonhos só existem

para nos ensinarem

a acordar devagar.






BL

23.08.25






sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Pesam-me os olhos

 







As palavras não pedem licença.
Caem.
Como cinzas sobre a pele nua do tempo.
Ficam.
Gravadas a ferro quente na carne branca da página.
Sem perdão.
Sem regresso.

 

Disseram-me:
“Não abras o livro que sangra.”
Mas eu abri.
Com dedos trémulos e olhos em febre.
E lá estavas tu
em cada linha que me queimava a memória.

 

O escritor avisou:
“Não escrevas. A tua dor é demasiado bela.”
O alfarrabista gritou:
“Queima tudo, ou serás devorada pelas vozes!”


E eu
obediente
rasguei cada verso que me tocava.
Mas a tinta ficou nas mãos.
E as mãos ficaram em mim.

 

A folha vincada a quente.
A folha vincada a quente.
Repito

como quem reza
como quem tenta apagar o nome do desejo.

 

Fui ter contigo como o sal vai à ferida.
Como o silêncio invade o quarto depois do grito.
Como o mar engole o rio e nunca o devolve.

 

Agora
pesam-me os olhos.






BL

22.08.25







quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Quando o tempo é abrigo

 








O tempo é casa
com portas que rangem
e janelas que guardam
o cheiro dos dias.

 

Tem paredes gastas
onde encosto a memória
e um sótão
cheio de silêncios empilhados.

 

Há quartos
onde ainda mora a infância
e corredores
onde ecoam passos que já partiram.

 

O tempo é casa
e eu sou hóspede
de mim mesma.

 

Às vezes arrumo
as gavetas do passado
ou deixo o presente
a secar na varanda.

 

Mas nunca saio
sem deixar
a luz acesa.





BL

20.08.25






segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Há uma dança na margem

 


 








No centro
tudo se anula.
A medida implode
o grito ecoa.


Tu
disfarce do comum
escapas ao compasso das regras.

 

Eu?
Sou a excentricidade que resiste.
Afastada do meio
do conforto
do porto seguro.

 

Há uma dança na margem
um equilíbrio precário na beira da queda.


Mas é lá que me encontro.
Onde o tempo não passa por cima
mas atravessa o peito
como relâmpago.

 

Anda comigo.
Vamos correr sobre a lâmina do instante
onde cada passo é quase queda
e cada queda é quase voo.

 

Não olhes para trás.
O passado desfaz-se como névoa.
Correr é cair com intenção.
E o que nos salva é o passo seguinte.

 

Tu e eu
em queda contínua
sem tempo para medir
mas tempo suficiente para sentir.





BL

18.08.25






sábado, 16 de agosto de 2025

Dialeto da chuva

 






Não era falta.
Era húmus.
Matéria antiga

a respirar sob os pés.

 

O cheiro subia em espirais
como se a memória tivesse raízes
e a ausência germinasse em cada gota que caía.

 

Era o chão que falava
num dialeto de silêncios

de folhas que tocaram corpos
e nunca esqueceram o contorno.

 

Tudo era lento.
Como se o tempo

encharcado
escorresse pelos sulcos da pele.

 

E eu

meio lama

meio lembrança

 

ouvia a chuva falar 

em sílabas estranhas 

como se guardasse segredos 

que só o vento entendia.




BL

16.08.25






 

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Mas tudo é quase

 







Tudo começa antes do tempo
antes do toque
antes do nome.

Tudo continua depois do fim
depois do adeus
depois do eco.
 
O corpo
[este planeta que habito]
orbita entre o visível e o ausente.

Tu és estrela
és sombra
és o que vejo quando fecho os olhos.
 
Temporariamente
saboreamos o mundo:
o quente
o frio
o doce
o amargo.

Mas tudo é quase.
Quase bom
quase mau
quase nosso.
 
Para cada coisa que abraço
outra escapa pelos dedos.

Para cada instante contigo
há um silêncio que me espera.
 
Matéria e ausência
presença e saudade

o claro e o escuro
dançam no mesmo compasso.
 
E eu pergunto ao universo
o que é que ele vai levar
em troca de te deixar ficar.







BL
14.98.25





quarta-feira, 13 de agosto de 2025

Ainda assim

 





De onde venho
senão da ausência que me pariu
do silêncio húmido entre dois suspiros
do ventre do tempo anónimo?
 
Nasci
talvez
de um pensamento não pensado
de um erro humano

ou de uma vontade teimosa
de existir.
 
Por aqui
procuro

sem bússola
 
o centro da ausência
a ferida inaugural.
 
Sou palavra entreaberta
a dúvida cravada entre costelas

sou o que resta
quando tudo arde

e
ainda assim
sobra lume nos olhos.
 
Vou
quem sabe
ao encontro de mim mesma
antes de saber-me.






BL
13.08.25