sexta-feira, 8 de agosto de 2025

Atrás do vento

 





Há tardes que me chamam
com vozes de outra época.


Nos cantos da memória
espreitam risos

e passos

que foram apagados

na calçada.

 

O tempo não leva tudo.
Deixa marcas

nos vidros das janelas
reflexos de mim quando ainda

 

corria atrás do vento
e acreditava no calor das promessas.

 

Hoje

guardo em silêncio
esboços preteridos
como quem conserva retratos desbotados.

 

E

mesmo sem saber voltar

ardo em lembranças

que ainda perfumam o ar da tarde.

 



BL

08.08.25



 

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

Entre regras e ruínas

 







O poeta não fala.
Constrói silêncios com sílabas feridas
como quem fecha os olhos
para escutar melhor a dor.

 

A gramática arde.
Sangue em combustão recusa sintaxe
desenha no corpo uma oração sem deuses
onde o amor tropeça nas vírgulas
que não se justificam.

 

Nos dicionários
a eternidade corrige-se com lápis gasto.
Os verbos morrem de cansaço
entre definições que não souberam sentir.

 

E o verso?
Talvez seja penitência
uma escada quebrada
entre o coração e a boca.

 

O poeta escreve.
Erra.
Insiste.
Como quem salta do abismo
e espera que a luz venha a tempo de traduzir
a queda em linguagem.

 

Resta o homem
esboço cru
tatuado de metáforas
que não consegue amar sem sangrar.

 

E o poema
esse pequeno exílio
desaprende a nascer
com medo de ser vivido.







BL

07.08.25







quarta-feira, 6 de agosto de 2025

no escuro

 





sou
porque há sombra

 

a luz
revela

 

tu vês
porque me contorno

 

sou silêncio
sem mostrar mais
do que isto

 

segue a sombra
ela estende-se
onde passei

 

procura-me
ali

 



BL

06.08.25





terça-feira, 5 de agosto de 2025

Carta ao vento

  







Hoje

vi-te passar.

 

Tinhas o passo vagaroso

como quem conversa com as pedras.

 

Levaste contigo

o cheiro da manhã

e uma saudade amarrada aos dedos.

 

Não me viste.

Mas deixei-te esta carta

pendurada no ar.

 

Se te tocar no ombro

saberás que há quem te vê

com olhos de árvore.






BL
05.08.25








segunda-feira, 4 de agosto de 2025

ao longe, tu

 





daqui

telhados
ruas que não dormem
árvores que abrigam pessoas
e casas com folhas nos alicerces.

 

caminhas
entre pedras que te escutam.


eu vejo-te.


não sei para onde
mas sei que vais.

 

fico
presa no tempo de que falam
suspensa num céu que me segura
até o dia te devolver ao mundo.

 

quero tocar-te no ombro.
dizer: estou aqui.
mesmo que longe
a muitos abraços de distância
consigo tocar-te.

 

se vieres
levitamos.
subimos.
vemos o mundo em linha aberta.
vemos o fim que parece começo
vemos a rua onde deixaste um passo.

 

e eu?
fico
a ver o trilho que te levou
até desapareceres.





BL

04.08.25





sábado, 2 de agosto de 2025

Sismos na pele

 


 

 

Às vezes

não é o caminho que se mostra


é o corpo que aprende a caminhar

às cegas

como quem escuta sismos na pele.

 

 

Tudo em volta é neblina
mas há um pulso

discreto

firme

que nos guia

sem exigir mapa.

 

O coração murmura

no compasso das falésias interiores

na inclinação dos dias sem nome.

 

É aí que o rumo certo nasce
sem nítido horizonte


mas no ponto onde o caos desacelera
e se deixa tocar.

 

A lucidez chega de mansinho
como quem pousa uma vela na água


e espera
que a corrente saiba o resto do trajeto.





BL

02.08.25





sexta-feira, 1 de agosto de 2025

Corpos de sal e ardor

 





Escrevem-se ainda
em murmúrios rasgados
palavras que a noite nunca consentiu.

 

Um silêncio erguido em grito
suspenso nas pálpebras dos que amam demais
com os olhos perdidos
nas vísceras da distância.

 

Fome e verbo deslizam na pele
numa dança de líquida ausência.
Os corpos

órfãos do instante
trazem nas mãos
o sal e o ardor

do que nunca se cumpriu.

 

Despenham-se desejos
em tábuas febris de memória
onde o amor
se faz exílio e oferenda.

 

Somos criaturas maiores
de lume e mar
levando nos ombros
a espera em forma de espinho


e nos ventres a eternidade

suspensa de um beijo calado.

 

Escrevem-se ainda
nas margens do tempo
os amantes que só sabem existir em verbo.





BL


01.08.25