sexta-feira, 2 de agosto de 2024

O silêncio do verbo

 








Não sei se é tão simples encontrar

na luz crepuscular das paredes

o percurso da rebentação

das mãos



ou o hálito que despe a solidão

de um corpo moldado

na anatomia do

esquecimento.



Existem lugares anoitecidos

debaixo das ruínas onde secaram

as raízes das veias.



Sei de uma aridez que

atravessou o tempo



e de uma árvore que continua

a crescer


como quem aprendeu a amar na insanidade

de um sonho que te recolhe


sobrevivente.



Não sei explicar se é o sorriso das máscaras

a conduzir à respiração do corpo.









BL

01.08.24








terça-feira, 16 de julho de 2024

Eclipse da sintaxe

 




Não, não esqueço os

fantasmas da loucura. Que seria

dizias.


Sem adversativas nem transgressão

cabia-me a esperança translúcida

da inocência.


Atava nós de paixão na pulsação

das veias

os olhos a mergulharem

no reflexo ilusório da

utopia.


Eclipse da sintaxe

no avesso dos espelhos. E tu

no teclado

neste excesso de vazios.


Sobras de quase nada

no silêncio confessional do poema.




BL

16.07.24








quarta-feira, 3 de julho de 2024

Cruzo-me com cidades a ficarem para trás

 







Sonhava-me vida

e semente

daquilo que queria ser para sempre

a germinar em mim.


Talvez tenha esquecido os verbos

a conjugarem visões do futuro

ou a tinta me tenha secado nos dedos.


Abro o dicionário das sombras esguias

a projetarem a estrada


sem pés que calquem o pó

ou pontes de fogo que irradiem

dos oceanos.


Cruzo-me com cidades a ficarem para trás

esqueço a rota das aves

que viajam com a geografia do vento.


De que cores pinto os dias

que pingam dos céus?


O tempo esqueceu as campainhas noturnas

onde se abriam paisagens

em que a vida me bastava:

esta que me atravessa

e me é distância.





BL

03.07.24








domingo, 2 de junho de 2024

[ In ] significâncias

 







Como se pudéssemos re
significar o silêncio a cada nova
folha em que o céu se desdobra.

Ilusória esperança que persistimos
em manter.
Mas abismos e labirintos

não cabem na bola esmagada
de um calendário
onde arrastamos o tempo

pautado de cada gesto
e nos perdemos dos lugares do sol
na fuga do vento.



BL
01.06.24



quinta-feira, 30 de maio de 2024

Imagem anónima


 


Deitou-se sobre a terra
era a última fila do estio
[ tinham anoitecido os últimos risos de terra fértil ]
adormeceu a insónia sobre a cama de relva.

Trazia sob as pálpebras páginas indecisas
fotografias do vento e
frutos de verão a contornarem lábios
perdidos entre a ramagem.

A seu lado a pulsação da
pele 
voo de estrelas
escárnio da ilusão
[ amor derradeiro amor primeiro? ]

Leve e frágil a libertação da memória
breve agitação do tempo
fogo-fátuo sem geografia.



BL
30.05.24














quarta-feira, 29 de maio de 2024

"África minha"

 











Meu chão é terra vermelha,

eu sou ébano e bonita.

Dançam sombras, ao sol ardente,

abraços da terra quente,

minha savana infinita.



Se, ao invés da cor,

prevalecesse o amor,

Pai nosso

que estais nos céus,

se, ao menos, eu pudesse

ajudar todos os meus.



Meu cabelo é negro e livre,

cresce, bravio, como o vento.

Coberto de flores, cores, ornamentos,

refletindo a luz dourada

e

em traços finos,

um perfil de vida ritmada

ou o silêncio do tempo.



Pai nosso,

que estais nos céus,

Tu e eu somos iguais.

No chão vermelho, o sangue,

da caminhada exangue,

desde o passado ao presente,

se não nos aceitam os demais.



Meus olhos fechados fitam a lonjura,

atravessam a cintilante vastidão.

Tão largos nesta planura,

pinto sonhos,

histórias brilhantes,

na tela do meu coração.







BL

28.05.24
















sexta-feira, 3 de maio de 2024

Labirintos da memória


 



Às vezes oiço vozes
onde iludo um aconchego
uma palavra que me é impulso.

Nas paredes explodem rostos
a atravessarem os lugares de ti
[ e de mim ]

ao longe.

Ressoa-me a limpidez da
tua voz

no azul transparente dos
teus olhos.

Sussurravas-me na pele o
futuro dos verbos.

Esculpíamos na espuma das
ondas
os frutos de um verão que ecoa

no tempo
na vertigem implacável dos relógios
onde os corpos se desfizeram
em sombras.

Ainda me sento na espuma
das ondas

e viajo pelas imagens que percorrem
os labirintos da memória.

E escrevo as noites antigas
em que já não existo.

Em que tudo morreu
dentro dos seus nomes.






BL
03.05.24