terça-feira, 16 de agosto de 2022

A voz do tempo

 



Um incêndio ancorado

inclinado a qualquer instante

de reativação.


Avança sobre a

relva fresca

sem limites da memória

na imensidão do céu.


Atravessa o tempo

rejuvenesce

em existências sobrepostas

em idades que pertencem a lugares

onde existiu

e se entendeu.


Alimenta-se da melodia do melro

e engole as raízes mais profundas

da voz

no toque silenciado da pele.




15.08.22

BL


















domingo, 14 de agosto de 2022

Desvios

 



As vozes dissolviam o nevoeiro

porque saboreavam os significados

das palavras gravadas na

parede branca.


No interior da luz

rostos atravessados de memórias

dedilhavam murmúrios de ventos


ou afetos fechados entre muros de inocência.


A tarde era um início

e o final um caminho invisível

à distância do alfabeto das horas.



BL

14.08.22




sábado, 6 de agosto de 2022

De um tempo de aves

 




Há um livro pousado sobre a mesa

e uma voz que lhe chega de um tempo de aves

ateadas de luz.


Pedra solitária

desenha num gesto

um caminho de mar. E a penumbra


consente-lhe um sorriso de pétala

em que recolhe

o desvario de asas prometidas


num diálogo de sílabas proibidas.


Assim pensou

_ proibidas _

como um rasto de cinzas e de sombras

onde nada mais existe que o negrume dos reflexos

a morrerem de sede.


BL

05.08.22











sexta-feira, 29 de julho de 2022

Ecos

 





A vida cortada ao meio

o negro e o vermelho

e tu

sonho de permeio.


Ilha de fogo

instante de ventos, folhas, águas

de claridade.


O tempo que foi

e tu a ficares

memória de todas as cores.


A vida cortada ao meio

e tu

crença do que resta dos aromas

da inocência.


Os olhos da verdade

à distancia do adeus na frieza

crua dos vocábulos.


Sobram os ecos

do não inteligível

o poema que regressa ao coração da noite.


Sobra a matemática das horas

no ritmo prosaico dos dias.


BL

01.12.21









sábado, 11 de junho de 2022

Poema interrompido





Subíamos a avenida

imensidão de luz coada

pelos fascínios que o outono trazia.

E dentro das mãos

levávamos melodias.


Em redor

o silêncio

a ilusão da paisagem deserta.


Atravessámos a invernia

a chuva abundante

horas somadas de relâmpagos


e a linguagem dos teus olhos

que

por dentro

eu vivia.


Mas abril descia

a luz imensa descia

e desciam as melodias

águas mil

instantes de ventos


e ecos a sobrarem da vida que caía

dos aromas da inocência.


O tempo a ir

dias atrás de outros dias


e tu a ficares memória

poema interrompido


instantes de ventos

águas mil


a regressarem ao coração do silêncio.




BL

10.06.22










 

domingo, 8 de maio de 2022

Existe no meu voo um instante inconfesso


 





Existe no meu voo um instante inconfesso.

Morde o vento

arranha as águas adormecidas

de um mar que existe dentro de mim. Esta dor

extensa

[não extinta]

ou o acorde de piano que me leva a

atravessar o mundo. Placidamente.


Às vezes

os meus olhos são esse instante.


Como fogo

ou como chuva


como o fundo da memória

onde o silêncio se cala

e acorda as vozes que estão vivas

que vão e vêm do meu tempo de menina.


Os meus olhos a vibrarem

o ar quente a tocar o meu corpo

e a passar por cima do mundo. A transportar

aquilo que é importante.


O ar parado

o tempo quieto

e eu a ouvir a tua voz a dizer os nomes

das coisas importantes.


A tua voz a ser meu lugar.




BL

08.05.22



terça-feira, 26 de abril de 2022

Nestas pedras pode estar um poema

 



Daquela janela,

que raramente eu escolhia,

eu via e ouvia

a cascata de pedras,

por onde se estendia

a luz colorida das margaridas-do-cabo.


E, naquele instante,

não mais eu queria

além de um tempo parado,

já agora, também, um espaço iluminado,


para que eu, já de mim sombria,

pudesse festejar a ausência de sombra

que, de noite e de dia,

teimosa me segue

para todo o lado.




BL

26.04.22