quinta-feira, 14 de abril de 2022

Secam-lhe as árvores

 


Estremece à incerteza das águas

no soluço dos poentes.

Pouco sabe dos segredos de cada hora

ou da geografia irrecuperável do derradeiro sol.

Asas voláteis navegam-lhe as veias

e na brevidade dos dias escorre uma lava

acesa de palavras.

Vozes e cinzas permanecem inteiras

ainda que sejam efémeras

as sementes que lhe vivem no olhar.

Secam-lhe as árvores

no voo transitório das brisas

de uma janela de mar.

Acostada ao tempo

é um vulto

um silêncio retraído

a febre que dói

na soleira do precipício em que em sede se afoga.



BL

14.04.22








sexta-feira, 8 de abril de 2022

Persistência

 

No vento inquieto da tarde

verbos de aves conjugadas

tuas e minhas

riscam sulcos

atam laços

o teu nome

formas de asa

prendem e arrastam


estão em mim

ferro em brasa

delicadas

as palavras.


BL

06.04.22







segunda-feira, 4 de abril de 2022

Manhãs [ des ] iguais

 


Os passos apressados dos passantes

os despachos urgentes

ou assuntos pendentes

dos tão-importantes.


E aí

dei por mim

sozinha


a varanda era a minha


as mãos apoiadas no corrimão

da manhã aceitando

a respiração.


E

naquele momento

de sol e de vento

senti


no meu espanto


que o tão pouco era tanto

para a minha canção.


BL

03.04.22



segunda-feira, 14 de março de 2022

O silêncio é vertigem



 Uivos de fogo derramam relâmpagos

sobre o rio amarrado às margens.

Os instantes de luz ferem os ponteiros da cidade

engolida no espanto da sombra.

Dói o rosto da noite

a estremecer desde o ventre da terra.

O silêncio é vertigem

onde a morte sem nome se acomoda.

Nas palavras confundem-se abrigos

e tumultos de viagens derradeiras.

A casa

o caos.

Mapas de limbos na permanência dos dias

ou voos extasiados no orvalho dos olhos.


BL

14.03.22








sexta-feira, 4 de março de 2022

Vocábulos indizíveis

 

Na pele

os escombros das manhãs

uma esperança fugaz ou os desvios de alguma outra

tecida na turbulência do peito.


Reaprende-se o colo em que se acorda

dos ardis profundos da noite.


Na verdade dos olhares

os vocábulos indizíveis

a dor desnuda da recordação dos pássaros.


Um fumo denso apaga sinais de sorte

e o mundo revela-se letal e desabitado.


Verte-se o sangue de um futuro adiado

e guarda-se em sementes de nevoeiro um simulacro de sol.


BL

03.03.22








quarta-feira, 2 de março de 2022

Parede de sangue

 

A inocência perdida numa parede de sangue.

A alma a respirar a noite profunda

no esforço de combater a morte.

O olhar

líquido

parado lá atrás

na contemplação do amor aberto aos gemidos da terra.

Pássaros perdidos

a procurarem entender o que está

para além da sua ausência.

Nas mãos

o silêncio.

O silêncio iluminado de um coração de pretéritos

ou o silêncio náufrago do inverno incisivo do futuro.


Tantos olhos

para onde nenhum barco regressa.


BL

01.03.22








domingo, 13 de fevereiro de 2022

A des.configuração das sombras

 



Nem sempre sabemos se o que nos inquieta

é a ausência do sonho


a solidão dos passos

ou o silêncio que cai sobre a pele


e a queima

sem que a manhã nos acorde.


Agarramo-nos às palavras

e ousamos tocar o tempo para sentir


no silêncio

[ redentor ]

a cumplicidade de uma voz


ou para antever

na luz

a des.configuração das sombras.


Para que seja nomeado

o corpo interrompido da verdade.


BL