quarta-feira, 17 de junho de 2020

Ilusória é a sílaba que flutua

Fechamos os olhos e
entregamo-nos à transformação da palavra
alquimia
luz imensa de substância pura.

Escutamos a sabedoria do mundo
somos corpo na justeza do gesto
ou então imagens dispersas
promontórios que atravessam a noite
escura.

Percursos às vezes partilhados
na imensidão das horas
na penumbra já tardia.

Ilusória é a sílaba que flutua
abstrata sensação de abismo
sem verbo e sem forma exposta à fluidez
do (en)canto.

BL - 17.06.20

sexta-feira, 12 de junho de 2020

A tarde deixa-se tingir de poesia


A rua respira um tempo comum e solitário
a tarde deixa-se tingir de poesia
nas mãos a claridade na urgência de um afago
melancólica neblina
e indistinta.

Rede de memórias
dentro do vento que persiste
e rumores que se dispersam
no eco transversal do teu nome.

Acendem-se rostos em ardências encontradas
e por entre os espaços do que fomos
chegam-me as vozes de um alfabeto imaturo
no coração quente de palavras felizes.

Breves e mortais
[as vozes]
ondular de águas sustentadas por
distâncias impalpáveis e inexatas
a estenderem o movimento das mãos
no interior de um tempo que abraçamos
como prodígio.

BL – 12.06.20

sábado, 6 de junho de 2020

Tempo solar


Murcham os cravos
frágeis
a celebrarem a ironia do verão.
A buganvília não floriu
talvez a fome entranhada na extremidade da raiz.

Alongam-se as horas
agudas.
Alimentam a insónia
quando as
sombras se pronunciam mais densas.

Vagueiam pela casa
ardem
e gritam
enquanto recuperam memórias a preto e branco.

Um dia terei encontrado paredes de silêncio
onde a minha voz encostará a febre das palavras
uma árvore de raízes que
não morrem. A minha lucidez
ou o choro do poema.



BL - 05.06.20

Grande plano





O caminho é para onde o silêncio se veste de lavado
ou os dias reaprendem a viver
em plena primavera.
Abotoa-se a pele e evita-se a dormência
das janelas batidas pelo entardecer.
Saltam-se precipícios
ou corações magoados que nos
atravessaram parte do tempo.

E continua-se a ser futuro.

BL - 22.05.20

A meia voz

Existem dias que nunca chegaram
e poisam na vida
desajeitados
na hora em que os pássaros se acostam
ao último voo.

Vertigem fugaz da caixa de silêncios
a trilhar um caminho circular.

Os olhos habitam-nos o horizonte
e as sílabas pronunciam-se desajustadas.

Cresce um abismo de lugares vazios
e
de repente
sobrepõem-se todas as coisas por ordenar.

Espetros de um labirinto de sonhos
a anteciparem a voz da manhã
naquilo que vivemos por dentro
sem remédio.


BL - 19.05 20

Abstração

Prolongar-me nas palavras ramos da alma
a germinar o vento. Redemoinhos
de sílabas a despertarem
alvoradas
adormecidas
de cansaço.
São breves as horas os dias
imensos
retrocessos
recomeços.
Inclina-se o verso
eco disperso a rasgar a pele.
E o silêncio dobrado de medos é um
rio suspenso a reinventar a raiz do tempo.


BL - 16.05.20

Recolho os verbos de todos os poemas

E fico à espera que um dia
a tua voz chegue da lonjura do olhar
ou um pássaro voe atravessado de luz sobre a minha pele.

Em ti existirão as sobras de um abrigo
a melodia em ruínas
a estridência do que não foi dito.

As palavras serão matéria da noite
nuas como a alma
guardadas em mim como sussurros dos teus passos
a entardecerem nos versos.

No turbilhão da vertigem
recolho os verbos de todos os poemas
pedra definitiva
consentidamente perdida na cegueira do erro.

BL - 13.05.20