quinta-feira, 4 de maio de 2017

Relógio de sol

Embriagada pelo sonho da flor
pintou o tempo numa grande tela
em gotas de sol e de emoção.

Remanescente a cadência do mar
a magia do azul
em eterna mutação.

Em câmara lenta

[ a desfrutar da espera ]

depois da brisa
que lhe acordou memórias


explicar o silêncio no rosto do mundo

ou a seiva entranhada em sílabas precárias
que lhe secam nas mãos.

Sabe da pele e da luz temporária
albergue de música a dissolver
a noite.

Sabe de um nome que lhe segreda aves
a lembrarem a brevidade das folhas

e a semente a envelhecer submissa
à sede que lhe atravessa
a cor.

BL
04.05.17

domingo, 23 de abril de 2017

Pousio do tempo

No grito ou no silêncio
que se estende da palavra ao assombro do momento

imensa a ondulação do tempo
sem ontem
sem amanhã

o tempo suspenso na fragmentação da luz
espaço inscrito no nada

ou nova linha de partida.

O silêncio
um traço

ou um espaço atemporal

e a sombra a procurar o grito
a entrar pela luz adentro.




BL
23.04.17

sábado, 1 de abril de 2017

Degraus

Perdeu-se de vista quando
abandonou os olhos na direção
da sabedoria dos deuses.

À sua volta nomes estranhos
segredavam-lhe medos. E ela
concha e tempestade
revolvia as manhãs na ilusão da luz

enquanto estendia pontes
e aprendia a decifrar a linguagem
dos muros.

A alma a parar num tempo feito de alvoradas
que entravam
sem baterem à porta.

Deixava que as vozes se alongassem
quando as horas se pronunciavam mais densas.

Atónita e deslumbrada
sorveu de um só trago a inocência de maio

em intermitências de um azul envergonhado
e chuva miudinha

num dia inteiro vestido de cinzento carregado
em queda para a trovoada.

Vida sem dias melhores. Nem palavras a voarem andorinhas.


BL
01.04.17

domingo, 19 de março de 2017

Março

Chegamos a um tempo curto que se alonga
em sentido inverso.
Tudo o que acontece parece
ter já acontecido

mesmo o que acontece pela primeira vez.
Os olhos a recuarem
assombrados com a voz de março
no ar que se respira. Amanhã anunciarão a flor

enquanto o poema se abre
na inocência dos pássaros.

Antes da mutilação da metáfora.

BL
18.03.17

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

O que já não nos podemos dizer









Atravessar a praça
como quem atravessa um deserto
dentro de nós.

A habituação da voz a inclinar-se
para a foz das reminiscências.

Um livro pousado ao acaso
sobre a mesa

páginas em branco
reféns da mutabilidade das palavras
ou talvez da imobilidade das mãos.

Passaram séculos sobre nós.

Não sei hoje qual a cor
que prevalece nos teus olhos.

Sei a dor
que não esmorece nos meus.

BL
14.02.17

quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Na imobilidade do olhar

Está doente
o poema. De pálpebras fechadas
convoca a melancolia das nuvens
e fala do silêncio como um refúgio.
Um zumbido de memórias
redemoinho interior
a sonhar-lhe as palavras que expliquem
os pássaros que envelhecem amarrados
à extremidade do poente.
Dói-lhe a palidez do tempo
que atravessa as ruas despidas de pólen.
Na alucinação do sol
prepara-se para o voo da noite
ao lugar onde as veias se fundem
na imobilidade do olhar.


BL
21.12.16

sábado, 3 de dezembro de 2016

O monólogo do vento

Inventaste um rosto para apagares
o cansaço que alastra na noite
em teu redor.
Nenhum eco cresce das horas
que acendem um mundo
fora de ti.
Estilhaças o tempo
em sílabas inertes
ínfima constelação de pontos imóveis
paredes nuas de uma casa desabitada.
Onde procuras a tua sombra
ou a voz da inocência onde já não existes.
A noite toca o teu corpo sufocado num silêncio
de pássaros encarcerados.

E eu escrevo o monólogo do vento.
A evocar o teu nome
dobrado sobre a distância imponderável
de um opressivo deserto atravessado de medo.

BL
03.12.16