O quintal habitado
de infância.
Cumpre lonjuras
revive raízes cúmplices
roupa lavada
aprumando domingos.
Ajeito significados
em pensamentos
que não percorro.
BL
12.09.26
O quintal habitado
de infância.
Cumpre lonjuras
revive raízes cúmplices
roupa lavada
aprumando domingos.
Ajeito significados
em pensamentos
que não percorro.
BL
12.09.26
FOTO DE JL
Claridade em suspensão.
Nada se fixa.
Tudo é fluxo
a atravessar o ar.
Partículas de ti
partículas de mim
sem direção
sem nome.
Tudo é deslocação
num campo sem tempo.
O dia não acontece.
A noite não se recolhe.
Apenas um brilho imóvel
a oscilar
dentro do vazio.
O que se dá
o que se recebe
movimentos ínfimos
desvios quase invisíveis na matéria clara.
E todos os dias
todos
são o mesmo clarão
contínuo
a tentar permanecer.
BL
02.09.26
No sopro que antecede o escuro
uma vertigem de escarpas. E o vento
sem aviso
desce pela espinha
no silêncio que precede o arrepio.
Atravessa-me um fio de sal
trazendo o rumor de plantas que sobrevivem à aridez
e se erguem
obstinadas
sobre o mar
que insiste em não dormir.
Fico à beira das vozes onde o chão
se torna uma promessa frágil
e deixo que a mão
em concha
derrame o que o medo não consegue guardar.
A noite
estendida como um acorde lento
desenha mapas que não conheço.
E enquanto a insónia se aproxima
visto um casaco de constelações
sobre o cansaço das preces
aprendendo devagar a atravessar a escuridão.
BL
18.08.26
Nesta soleira adormecida das águas
escrevo-te a tarde do poema
as árvores encostadas aos dias
adiados
como se entregasse os olhos
ao voo das palavras.
O vento sacode
as derradeiras sombras
incontidas e vorazes
a desviarem o caminho do sol que nos habita o horizonte.
Escrevo-te
os lugares das gaivotas
na vertigem desencontrada das marés
quando nos afastamos de nós
para mar nenhum.
BL
13.08.26