sexta-feira, 19 de setembro de 2025

O centro do relâmpago

 






A paisagem do mundo fechou-se em círculo
quando te vi

imóvel

ao fundo


como se o caos tivesse uma pele lisa
e nela repousasse a harmonia.

 

Sob a água do lago
a quietude respirava o teu nome.
Montanha em silêncio
força oculta no teu gesto mínimo.

 

Há em ti coisas que só o tempo revela.
Filigranas de sombra
linhas que o olhar não alcança
sem se perder.

 

Ceguei por te ver demais
por tocar o centro do relâmpago
em noite sem nuvens.


Agora

há cores que se movem
dentro dos meus olhos
quentes e frias


como o teu perfume na trovoada
que chega mansa no fim da primavera.

 

Deito-me sob a árvore onde o fruto
nos deu a boca.


Bagas brancas caem como promessas
à volta do nosso silêncio.
A luz trespassa a sombra
e encontra a tua pele.

Um pássaro soprou-nos um segredo
em troca de amor.

 

E eu vi tudo isso
antes de cegar por ti.






BL

19.09.25





 

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

No intervalo entre os versos

 






A palavra já foi dita
rasgada
curvada
mastigada.


Agora
permanece.

 

Não há mais o que escrever.
Há o que escutar
no intervalo entre os versos.

 

E nesse espaço


onde o tempo se dobra
sobre o que não foi caminho


a poesia ainda respira.






BL

18.09.25






quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Fica-me no silêncio

 






Fica-me no silêncio
sussurrou a pedra.
Não havia passos.
Nem sombra.
Só a pedra
[o peso]
Guardando no frio
a forma antiga do toque.





BL

17.09.25












terça-feira, 16 de setembro de 2025

poema de segunda-feira


 



um sopro de vidro estilhaça
o tempo

escorre em véus
entre os dedos

que já não tocam


a memória descalça

caminha
pelo chão onde o azul

se esqueceu

 

há um eco

que não se cala

no fundo

da chávena vazia


o corpo desaprende

o gesto
e a sombra

aprende a ficar

 

a casa respira em branco
os móveis fingem presença


a luz hesita

no contorno
da ausência

que se senta

 

um gato observa

o nada
com olhos de quem sabe
que o mundo se parte
sem ruído





BL

16.09.25









segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Claridade de dentro

 



 

A saudade

com sabor a terra molhada

secava devagar
como pedra que chora o seu musgo
resistindo ao calor da manhã.

 

O vento tocava as folhas com ternura
e a saudade


aquela saudade enterrada na pele
abria os olhos à luz.

 

Havia claridade
feita de sombra fina
de raízes que brilham por dentro
quando o tempo as chama.

 

No sabor da terra molhada
ficavam restos de passos
e promessas germinadas


como se a ausência florescesse. 




BL

15.09.25










sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Cântico das ruínas

 


 




Ergueste o teu destino
num claustro anónimo.

 

Rezaste às sombras.
Não te responderam.

 

Velas apagadas
pelas mãos do tempo.

 

Deixaste no altar
aquilo que não quiseste

 

ver do mundo.




BL

12.09.25




quarta-feira, 10 de setembro de 2025

O nome da luz

 





Chamaste-me

sem voz
e eu ouvi.


Ouvi
pela ausência

que deixavas em mim.

 

Segui o rasto
como quem sente o cheiro

da terra molhada.


E encontrei-te

onde o mundo termina.

No lugar

onde o teu nome começa.

 

E vinha a luz.

Partia de ti.


E eu

que já não sabia ser
aprendi a existir
porque te reconheci.




BL

10.09.25