sábado, 4 de janeiro de 2025

Refúgio de memórias

 







O amor ardia

reparador de promessas

maceradas.



Ignoraste-o

contudo

na neblina indistinta

daquele inverno plácido

e cruelmente faminto.



Podias ter dito do começo

às avessas

da falácia da estrada.



Mostraste-me a forma angular

de acreditar numa voz



numa cor de estio

que alonguei até ao infinito.



Tivesses sido tu o meu tempo!

Um lugar onde

cada extremo se despede

e se abraça .

O meu lugar!



Não seria somente a memória

o meu refúgio uterino.




BL

 04.01.25















quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Passos na escuridão


 




Deita-se ao largo de

um farol noturno

almeja um mar de sol nascente.



De quantas nuvens se faz

um colo,

mãe?



Tapa a insónia

com a luz grande.



Podes pintar-me

a cor do silêncio,

mãe?



Enterra os pés

em areias desertas

sem saber que trilho seguiu.



Sopram-lhe passos

as conchas dos búzios.



São os teus passos,

mãe.

São meus os teus passos

dentro da escuridão.





BL

02.01.25






domingo, 29 de dezembro de 2024

A sede

 











Repetidamente inscreve-se

a sílaba num silêncio escrito

a dois.



Perpetua-se o eco de vozes antigas

a pele da memória

a reviver o peso da ausência.



Enredam-se as vírgulas

sufocam

suprimem-se

iludindo chamas de um tempo

a adormecer sobre os ombros.



Insinuam-se sobressaltos

e há medos que gemem

fantasmas de uma força maior

espalhando palavras contra os muros



que o vento insiste em rasgar.



E uma sede feroz a consumir a razão

um pulsar

a recusar-se a ceder.



Acumulam-se as sombras

persiste o desejo de romper o vazio

de reinventar cada vírgula

de cravar o verbo no peito do impossível.



Procura-se arranhar a verdade.

Deserto definitivo de uma sede sem nome.






BL

29.12.24















segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Sementes de dezembro

 





Igual a tantos dias em que passas

alheio ao nevoeiro

ao grito do chão que piso



sempre maio dentro de ti

o café da esquina já perdeu o nome

e a luz mortiça a vir lá de dentro



e a minha cabeça a ser a luz que vem lá de dentro

as vozes a esvoaçarem

a serem só uma

ou duas

todas as certezas em que eu me dividia.



Eu só queria um destino com o sol a pino

agarrei dezembro numa lareira de

cinzas apagadas



não estou a chorar

só queria ter algumas sementes guardadas

um punhado de terra

e um sol a pino

para as germinar.





BL

02.12.24









terça-feira, 26 de novembro de 2024

Prendo a noite nos bolsos

 






Não digo de um mar vazio

onde se cruza o tempo frio das artérias,

prendo nos bolsos a noite,

acendo o sangue quente nos meus dedos

soltos em zumbidos

embalados de sentidos 

e de vitórias.

Disperso no vento o cântico agitado,

dor, cobardia,

amargura do cansaço.

Valseio um papagaio rubro

suspenso de andorinhas renovadas,

ébria de azul,

calmo e silente no peito um voo leve,

um trilho de ar que o destino não percebe.   




BL

02.04.2010


domingo, 17 de novembro de 2024

Os ramos que me crescem longe

 




É tempo de romper o barulho ensurdecedor das pedras

e ser fio de água clara

a correr no silêncio

que se desprende das nuvens;


saber ser a cor do mar

a rimar com o perfume

da madrugada;


semear no vento a voz das marés

a acordar cá dentro

a loucura dos pássaros adormecidos

a calar os uivos feridos do deserto;


escrever horizontes no interior da noite

o poema

a inventar paisagens

em dias de palavras

impossíveis.


Para que o pôr do sol

seja uma manhã inteira

e os ramos que me nasceram

de entranhas de linho

e de fogo

e me crescem longe

floresçam

terra e semente

nos girassóis que plantei

no chão que me habita a casa.





BL

06.04.12








quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Moradas do vento

 




E a pele a respirar reflexos

desse lugar que ainda existe. Como um relâmpago.

Flor breve

onde sonhos se imolaram.


Refazemo-nos em moradas

migratórias do vento

ou num teto de sol.


Reinventamo-nos num voo

de ave embriagada


corporizamos no verbo

um sentir preservado em copas

de memórias.


Somos histórias

de incêndios e de mar.

Habitamos nomes e poemas.

Transportamos nas veias rostos

e olhares


e sem hesitação doamo-los

a um tempo em liberdade

resguardado


na luz coada que ainda

nos pertence.





BL

06.11.24