segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

Em (des)equilíbrio

 





Os meus passos perdem o equilíbrio

quando roídos pelo desequilíbrio dos dias

que apenas morrem 

como se fossem pedras paridas por um poemário

em que o sol se deita quando nasce.


Pergunto-me pelos fios de luz das manhãs

pela maciez do rio que entrava pelo espelho


pergunto-me pelo dia ornado de laços

e sorrisos de natal

pelo dia em que o vento me possa trazer fitas de malmequeres

e o meu rosto não reflita

o sal invisível dos pedaços de palavras.


Pergunto-me pelo tempo 

em que ainda venha a tempo de marcar encontro comigo

de me perguntar por mim mesma

e rasgar as grades prisioneiras dos medos

no reequilíbrio do gesto.




BL

08.12.11











terça-feira, 26 de dezembro de 2023

Im.ajo

 







Entre o verso e a parede”

atravesso o tempo num grito


limpo a sede

modero o temperamento

tempero o vento

e agito.


Sou a pedra na palavra


a leveza com que se atina


depende do arado que lavra

ou da nota que [des]afina.


Quebro a regra

abrando o ritmo

subo a vereda

acerto o biorritmo.


Viajo.


Im.ajo.



BL

25.12.23










sábado, 9 de dezembro de 2023

Floema

 



 





Tateio na pele das árvores

a trança das memórias. Penteio os sonhos

de ontem e de amanhã

nomes

vultos que reaprendo

nas palavras onde moro.


Guardo no vento sementes

inesgotáveis

navios repletos de sol

onde equilibro os gestos

e aquieto a flutuação do tempo.


Dias de espera sobrevivem 

em insaciáveis gotas de água

visíveis na sonoridade das folhas azuis

suspensas da claridade dos pássaros

e do recomeço do movimento.




BL

09.04.11







quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Era domingo e chovia

 









Carregado de dores saiu

de casa

o cão pela trela.


Queria encontrar folhas

vivas onde desenhar palavras


pontes de mãos estendidas.


Poderia até encontrar árvores

atravessadas de luz


ou um pedaço de céu

que lhe fosse asa

ou bússola.


Percorreu duas ou três ruas

cruzou-se com quase ninguém.


Não viu árvores nos passeios

nem reparou no chão


coberto de folhas.


Não encontrou palavras

nos rostos das pessoas.


O cão levou-o de regresso

a casa


alto magro mãos nos bolsos

vazios de palavras


o olhar coberto de nuvens cinzentas

perdido de si.



BL

05.12.23


terça-feira, 28 de novembro de 2023

Eu apenas e a janela







Eu apenas e a janela

sem rosto onde abrigo

o tempo.


Percorro a solidão

das ruas

a ausência magoa

o vazio ecoa

de asas abertas

palavras

por dizer.


Sustenho o chão na raiz

dos laços que me restam e sou


nas rosas

breves

que o silêncio não levou.


Eu apenas e a tela em branco 

do tempo invisível

que me sobrou.




BL

07.06.12










segunda-feira, 20 de novembro de 2023

Enquanto a poesia não vier






Há no vento um silêncio de neblinas

um silêncio invisível

nos arbustos da manhã


uma canção impossível

de eternas borboletas

a renascer-me na pele

em imagens sobrepostas.


Entreabro a janela

enfrento os silêncios de dentro

arrumo sombras

e lágrimas uterinas.


Até ao anoitecer

enquanto a poesia não vier

caio em gotas de água fria

os dedos entrelaçados na valsa do vento

os olhos a caminharem sobre o tempo


como se nunca fossem chegar.



BL

14.06.12













sábado, 4 de novembro de 2023

Silabário

 





Explosão de sílabas


algumas fragmentadas

outras em moldes feitos por medida


murmúrios ascendentes

preces

ou

memórias

ecos da luz

andarilhos de espaços navegáveis.


Por vezes são

a respiração sonhada

a ondulação do tempo

o compasso do ar

a travessia do grito.


Conjugam a sombra e

a fuga


o mito

ou

a metáfora.


Transportam ausências

erros

ou

cicatrizes.


Por vezes são

a última vez

o risco

a libertação

o fim.




BL

03.11.23