terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Entre as margens onde o vento se afia


 




entre as margens onde o vento se afia

erguem‑se passos antigos
ecos de batalhas que nunca aprenderam a morrer.

alguém murmura:

coloca a noite sobre a pele
deixa que o lume secreto dos ossos
te conduza pelos corredores do invisível.

há um rumor de aves que não dormem
um pulsar escondido no fundo da água
como se cada gota guardasse
a memória de um voo interrompido.

e tu segues —
com o silêncio a abrir caminho
com a sombra a ensinar-te
que toda a viagem é também ferida
e toda a ferida [se escutada]
é uma porta para o regresso do mundo.




BL

30.12.25









sábado, 27 de dezembro de 2025

Raízes do tempo

 




Caminho ecos antigos
no deserto transparente
da pele

a sombra a desfazer-se
no pulso

o murmúrio a crescer
no intervalo indeciso
dos passos.

Trago sementes
e ausências

não sei
onde pousar o gesto.

Arde o nome
entre as linhas

no delírio brando
dos instantes.

Poderia seguir
rastos de vento

não sentir o peso
da terra

se me fosse permitido
calar
a lembrança de um rosto

que por dentro me chama
e me reconhece

e na lentidão de um lago
tece sonhos antigos

raízes que procuram luz

a abrirem um tempo

suave

s.u.a.v.e.




BL

27.12.25







terça-feira, 23 de dezembro de 2025

No silêncio

 






e o silêncio

 

que guarda o peso das estrelas

 

desce sobre os meus ombros

 

como um rio de sombras

 

abrindo fendas na memória

 

onde o fogo repousa

 

e a pele se torna horizonte.






BL

23.12.25







domingo, 21 de dezembro de 2025

Juramento de fogo na beira da noite





face erguida ao lume secreto onde os sonhos se oferecem ao abismo
escrevo na noite como quem aprende a respirar
um sopro ardente que rasga a escuridão
relâmpago breve a incendiar a pele do mundo

há uma força que me recolhe do precipício
e me devolve ao chão intacto onde o silêncio floresce
ali recolho os sinais dispersos do fogo
e faço com a noite um pacto de sangue e sombra

amanheço então
flor súbita de sossego a abrir no limite do dia
enquanto a noite repousa no fundo do meu peito

e existir é apenas este gesto lento de acender o mundo por dentro 




BL

21.12.25





sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Da terra

 





No seio das raízes ocultas
gravadas no ventre da pedra
surgem germes imperturbáveis
que se prendem à pele do mundo

densos fragmentos de palavras
sortilégio de um silêncio fértil

onde cada semente repousa
a aguardar o momento da explosão vital.

 

Sobre mim

o peso imóvel da montanha
um rumor profundo de minerais
dispersos no ar

partículas que flutuam
sem o consolo da água.

 

O horizonte ergue-se em rocha maciça
aprisiona o sopro do fogo
que se move
inquieto
sob a superfície.

 

E os silêncios tornam-se muralhas
os ecos antigos desfazem-se em pó
fino e persistente.

 

E a voz telúrica
forte e ancestral
insiste em multiplicar-se
reverberando através das entranhas da terra

testemunhando a permanência
e a renovação silenciosa
no âmago do ser.








BL
12.12.25









 

quarta-feira, 10 de dezembro de 2025

De silêncio e água

 



havia uma brisa,
branda, breve,
a bailar no limiar da espuma.

um eco redondo,
rodopiando,
a levar no compasso
o voo dos pássaros.

um murmúrio,
tão vago, tão lento,
como corda que vibra
no silêncio suspenso.

e a ausência,
líquida, líquida,
a curvar-se no teu silêncio,
como nota que se dissolve
num acorde distante.

o tempo gotejava,
pingos de sombra,
pelas minhas mãos quietas,
musgos acesos,
a pulsar em contracanto
na penumbra da memória.





BL

10.12.25




terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Da luz e da sombra

 





no coração do dia
há uma chama que não se apaga
[um mapa secreto
entre a luz e a sombra]


a manhã abre-se como um orvalho
a tarde inclina-se no ouro dos telhados
a noite recolhe constelações na pele
e todas se encontram
num só silêncio que floresce


o poema é a travessia
é o voo que não termina
é o incêndio que se acalma
na inocência de nascer de novo


assim o ciclo se cumpre
na cartografia da luz e da sombra
onde cada instante é sagrado
e cada palavra é um corpo
que respira o universo inteiro





BL

09.12.25







segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

Horizontes na memória

 




quando a tarde se abre no corpo das horas
derrama o ouro lento sobre os telhados
[um sopro de calor
na respiração das pedras]

os passos tornam-se rios
que deslizam na pele da cidade
e alonga-se cada sombra 
como se buscasse o repouso do vento

há um rumor de frutos
que amadurece no silêncio dos gestos
um destino suspenso
que se escreve na claridade dos olhos

o tempo esse viajante de fogo
desenha horizontes na memória
e oferece ao instante
a vertigem de um sol que se inclina

então a tarde curva-se
no abismo das sílabas
e o poema ardente e secreto
cresce como um incêndio nos seios
até que o universo se recolha
na inocência de um novo crepúsculo





BL

08.12.25





domingo, 7 de dezembro de 2025

Degraus da penumbra

 





as sombras arrastam-se pelos degraus
com sede de lobos
marca após marca
espalham fragmentos gastos no vazio
enquanto o gesto dobra
sobre ossadas ocultas
de visões e vigílias sem rosto





BL

07.12.25










sábado, 6 de dezembro de 2025

Reflexo quebrado

 




corpo de areia  
deserto suspenso  
pele que se desfaz  

corpo de neve  
silêncio branco  
pele que se dissolve  

entre ambos  
aurora sem flores  
ocaso sem raízes  

um olhar  
vidro partido  
tempo que não regressa



BL
06.12.25





quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Onde tudo se torna pó

 



escavo devagar  
a poeira dos dias  
outrora futuro  
agora ossário de gestos  
 
palavras secas  
ou pedras alinhadas  
corpos desfeitos  
bocas que se abrem em silêncio  
 
memórias desprendidas  
caem como folhas  
na aridez da página  
onde tudo se torna lista  
onde tudo se torna pó  



BL
03.12.25






quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Entre o eco e a noite

 





A noite repousa no vazio.

Só eco e distância.

E o presságio de uma memória 

oculta no sopro das palavras.






BL

27.11.25






sexta-feira, 14 de novembro de 2025

O toque turvo

 





E depois há o toque turvo
onde o ser se desfaz em perguntas.

Cada gesto é só um rasto
numa areia que o vento apaga.

O turvo é o lugar da dúvida
onde o claro nunca se fixa.

O tempo lembra-nos
que tudo é breve
até o próprio instante.

Somos ecos que procuram sentido
sombras que se tocam sem se prenderem.

Um sopro que insiste em existir
mesmo sabendo que se vai perder.

E depois há o toque turvo
como se o universo nos dissesse

não há resposta definitiva
há apenas o silêncio que nos envolve.




BL

14.11.25




quarta-feira, 12 de novembro de 2025

O peso de passos invisíveis

 


 




A memória

ergue-se em muros quebrados


onde o musgo escreve nomes esquecidos.

 

Vozes antigas repousam em pedras que guardam

o peso de passos invisíveis.


Como se o gesto tivesse parado

a meio do tempo.

 

Entre as fendas

cresce um silêncio denso


feito de pó

e de sombra.


Um silêncio que respira

como se fosse vivo.

 

Há um espelho partido

reflexos perdidos
onde o passado insiste em permanecer.

 

 

 

 

BL

12.11.25





sábado, 8 de novembro de 2025

Círculos do tempo

 






No centro da memória
um relógio [sem ponteiros]
marca instantes que nunca aconteceram.

 

 As vozes do passado ecoam
em espirais
onde cada palavra se desfaz
antes de ser dita.


Um rio de sombras corre
em sentido inverso
e leva consigo os nomes
que esquecemos.

 

As raízes do tempo entrelaçam-se
no vazio
a bordarem mapas que ninguém sabe ler.

 

Há um silêncio que gira lentamente
como se esperasse por algo
que já foi
mas nunca chegou.





BL
08.11.25









sexta-feira, 7 de novembro de 2025

O tempo fragmentado

 




O tempo fragmentado
escorre por fendas invisíveis
como vidro partido em silêncio.

 

Cada estilhaço guarda um instante
que não regressa
mas continua a arder no escuro.

 

As horas dispersam-se em círculos
perdendo o nome
como se nunca tivessem existido.

 

E no vazio entre os fragmentos
ergue-se uma sombra imóvel
que observa sem princípio nem fim.





BL

07.11.25






quinta-feira, 6 de novembro de 2025

Rasto de seiva

 






Pisamos o silêncio
das folhas caídas

com o hálito a saber
a alecrim
e sombra.

Nos dedos
um relicário de instantes
que se desfazem
como névoa
ao toque do sol.

Há uma ternura
que se esconde
na dobra secreta
do peito
onde o tempo hesita
antes de seguir.

Talvez murmurem
os salgueiros
segredos antigos
aos ventos que passam

e talvez os pássaros
ao rasar o crepúsculo
tragam nas asas
o eco de promessas
não ditas.

Talvez a luz
que dança
na superfície dos lagos
seja o último gesto
dos dias
antes de se perderem
na eternidade.





BL

06.11.25












Esculturas do vento


 




Sílabas de água

prolongamento

dos instantes.

Grito

ou silêncio

passos esculpidos no vento.

Espaços

ou momentos

de ti de mim

ou de outros

tantos.




BL

06.11.25




quarta-feira, 5 de novembro de 2025

Caminhos de pó e claridade




 



Suspendo os olhos num tempo
resgatado
para que possa redimir as pedras atravessadas
por sombras e imagens indecifráveis.

 

E deixo que a noite se abra em silêncio
como um rio que procura o mar escondido
entre raízes que guardam memórias
de passos que nunca cessaram.

 

O vento ergue-se em vozes antigas
tecendo caminhos de pó e claridade
onde a esperança repousa intacta
na chama secreta do horizonte.





BL

05.11.25








terça-feira, 4 de novembro de 2025

O eco das águas invisíveis


 



Sílabas de água
deslizam sobre a pele do tempo
como se cada instante fosse um espelho partido.


O vento recolhe passos invisíveis
e grava-os em dunas que respiram
onde o silêncio se confunde com o grito.


E no intervalo entre espaços e momentos
ergue-se uma voz sem dono
que nos chama pelo nome que esquecemos.




BL

04.11.25







Instância mínima






 

não é forma
nem fundo


a dobra
entre o antes
e o quase


um traço
sem direção


um tempo
que não se sabe
tempo


e
no entanto
pulsa

como se o vazio
tivesse nervos


como se o silêncio
tivesse vértebras


instância
mínima


não é pergunta
não é resposta


o intervalo
entre ambas


o que vibra
sem som


o que se move
sem gesto


o que se repete
sem ter sido


há um lugar
onde o centro
não cabe


onde o nome
se desfaz
antes de nascer


onde o corpo
é hipótese


e tudo o que é
não é mais
do que

a sombra
do que
não foi


instância
mínima


a memória
do que não tem
memória


a linha
que não toca
o papel


a ideia
que não se pensa


a luz
que não se vê


tantas
realidades
nunca
se formarão


nesta
instância
mínima


[o sentido
escorre
antes
do contorno]







BL

04.11.25