Noite sem estrelas
o vazio enche o silêncio
ecoa saudade.
BL
20.09.24
É o tempo.
Traçar as linhas e unir
as pontas.
Sorver de uma só vez
a subtileza da luz. Na incógnita
dos delírios da sombra. Incontida e voraz.
Alimentar cintilações de azul
como se explodissem nomes
rostos
na espontaneidade das mãos.
Desenterrar os ombros
quando a espera é
uma porta trancada.
Extinguir silêncios entre causas
e ecos
ser voz inteira à varanda da tarde.
Demorar o gesto no paladar
das palavras.
BL
17.09.24
Não sei se é tão simples encontrar
na luz crepuscular das paredes
o percurso da rebentação
das mãos
ou o hálito que despe a solidão
de um corpo moldado
na anatomia do
esquecimento.
Existem lugares anoitecidos
debaixo das ruínas onde secaram
as raízes das veias.
Sei de uma aridez que
atravessou o tempo
e de uma árvore que continua
a crescer
como quem aprendeu a amar na insanidade
de um sonho que te recolhe
sobrevivente.
Não sei explicar se é o sorriso das máscaras
a conduzir à respiração do corpo.
BL
01.08.24
Não, não esqueço os
fantasmas da loucura. Que seria
dizias.
Sem adversativas nem transgressão
cabia-me a esperança translúcida
da inocência.
Atava nós de paixão na pulsação
das veias
os olhos a mergulharem
no reflexo ilusório da
utopia.
Eclipse da sintaxe
no avesso dos espelhos. E tu
no teclado
neste excesso de vazios.
Sobras de quase nada
no silêncio confessional do poema.
BL
16.07.24
Sonhava-me vida
e semente
daquilo que queria ser para sempre
a germinar em mim.
Talvez tenha esquecido os verbos
a conjugarem visões do futuro
ou a tinta me tenha secado nos dedos.
Abro o dicionário das sombras esguias
a projetarem a estrada
sem pés que calquem o pó
ou pontes de fogo que irradiem
dos oceanos.
Cruzo-me com cidades a ficarem para trás
esqueço a rota das aves
que viajam com a geografia do vento.
De que cores pinto os dias
que pingam dos céus?
O tempo esqueceu as campainhas noturnas
onde se abriam paisagens
em que a vida me bastava:
esta que me atravessa
e me é distância.
BL
03.07.24
Como se pudéssemos re
significar o silêncio a cada nova
folha em que o céu se desdobra.
Ilusória esperança que persistimos
em manter.
Mas abismos e labirintos
não cabem na bola esmagada
de um calendário
onde arrastamos o tempo
pautado de cada gesto
e nos perdemos dos lugares do sol
na fuga do vento.
BL
01.06.24