sábado, 28 de fevereiro de 2026

Fé de areia

 


Foto de RL




Somos feitos de fendas silenciosas
essas que fingimos não ouvir
enquanto o mundo nos atravessa
como lâminas que aprenderam a ser vento.

Costuramos a pele com promessas gastas
na esperança de que algum fio invisível
nos devolva o contorno
que perdemos entre um gesto e o outro.

Guardamos crenças que mal cabem nas mãos
pequenos rituais de sobrevivência
que inventamos para admitir
que o incurável também pode florescer.

E quem somos?

Somos apenas ecos de água
correndo por dentro de pedras cansadas
à espera de que alguma maré distraída
nos devolva ao mar
de onde nunca deixámos de vir.




BL

28.02.26







domingo, 22 de fevereiro de 2026

Antes do sol


 

Foto de JL



Quando a manhã pousar nos teus ombros 

trarei comigo o rumor das folhas 

que dançam antes de o dia nascer.

 

Falarei da água quieta 

onde a lua se despede devagar 

e do brilho tímido 

que acorda nos telhados.

 

Contar-te-ei do voo lento das andorinhas 

que riscam o céu como promessas 

e do perfume leve 

que a noite esquece no ar.

 

E talvez então percebas 

que tudo o que renasce em ti 

também desperta em mim 

como um segredo que o sol 

ainda não aprendeu a guardar.




BL

22.02.26






sábado, 21 de fevereiro de 2026

Íngreme

 


Foto de JL



Avança sem bússola
um corpo que se adivinha apenas pelo rumor do chão.

 

Procura o intervalo onde a luz se desvia
e ali pousa
como quem aprende a demorar-se no indizível.

 

Sobe degraus que se desfazem
desce outros que nunca terminam
acolhe o silêncio que se esconde nas paredes gastas.

 

Não aceita promessas de passagem
nem o teatro de mãos

prontas a medirem afetos. Prefere o gesto que nasce sem testemunhas
a ternura que não exige troféus.

 

E assim segue.
Entre o quase e o ainda não
entre a sombra que o persegue
e a sombra que o protege.

 

Um itinerário que se inventa a cada passo
imprevisível
como quem aprende a existir

sem pedir licença.




BL

21.02.26





terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Poema

 






Um poema pode ser isso. Coisa que se apaga
enquanto indica o caminho

um risco de carvão
a tremer

no papel gasto.

 

Há quem o leia como mapa.
Ou quem o escute como vento.
Mas ele é somente

este gesto breve
de quem tenta acender um rumo
com a cinza que lhe sobra.

 

E
no entanto
mesmo a desfazer-se
mesmo a perder o contorno
ele aponta.

Para o que ainda resta
de quem o escreve.





BL

17.02.26






segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Mapa breve


 Foto de JL





Neste texto gasto
existe um mapa desenhado a carvão.

Relato da viagem
que fiz com as mãos vazias
seguindo o rasto de um barco
que partiu antes de mim.

O silêncio a sobrar. Escrevo
apenas para lembrar
que houve um porto
um nome
um gesto de partida.


Ainda que nenhum barco regresse.




BL

16.02.26





sábado, 14 de fevereiro de 2026

Quebro o verso

 




 

Quebro o verso
para que o poema respire fundo
no espaço em branco
e deixe o silêncio trabalhar
a favor do ritmo.

 

Quebro a frase
para que o sentido escorra
devagar
e aprenda a ouvir
o intervalo entre duas ondas.

 

Deixo que o branco
se estenda um pouco mais.

Às vezes
é no vazio
que a palavra encontra
o seu próprio eco.

 

Abro fendas
onde já houvera pontuação
e nelas deixo entrar
o ar fresco
de um pensamento que ainda nasce.

 


quando o ritmo hesita
não o apresso.
 

Também existe música
no passo que falha
e recomeça.




BL

14.02.26
















segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Azul silêncio

 






Naquele tempo
prevalecia uma voz
rouca

e uns olhos
azuis‑relâmpago

que atravessavam a sala
como quem rasga
um véu antigo

a deixarem no ar
um cheiro a chuva
e promessas
que ninguém ousava nomear.


As palavras vinham
lentas
carregadas de uma fadiga antiga
e de um lume secreto

uma verdade
a tremer
para nascer.

 

E eu
sentada à beira
do silêncio

aprendia a escutar
o que não se dizia

como quem recolhe
migalhas de luz
num chão
que desaprendeu o sol.


Havia noites
em que a voz falhava.


Mas os olhos
[ azuis-relâmpago ]
continuavam a incendiar
o escuro

como se soubessem
que a memória
é feita de clarões breves
e não de eternidades.





BL

09.02.26






domingo, 8 de fevereiro de 2026

Cicatriz de luz


 




relâmpago breve
no centro
do silêncio.

a cor
desaba
como quem revela
um segredo antigo.

o gesto
[ súbito ]
abre fendas
no ar imóvel.

a luz
transfigura
o que resta
de sombra
e deixa
um rasto
que não se explica.

tudo arde
num instante
que não volta
mas permanece
como cicatriz
de claridade.




BL

08.02.26








sábado, 7 de fevereiro de 2026

O instante que arde


 





o tempo
inclina-se
num sopro
de fogo.

há um ponto
[ ínfimo ]
onde tudo
se incendeia.

a pele
da sombra
treme
como se soubesse
o que vem.

o ar
abre-se
num clarão
que não escolhe
testemunhas.

e eu
permaneço
no centro
do lume
a ouvir
o silêncio
arder.





BL
07.02.26















quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Circular

 





Pela vereda
rasguei neblinas
e costurei horizontes

bebi silêncios
e plantei tempestades.

 

Apoiei o rosto no vento
e toquei o sal das dunas

atravessei veias antigas
e deixei memórias à deriva
amanheci na escuridão
e desorientei verões.

 

E
no regresso
o compasso das horas aproxima o ocaso do primeiro lume
como se o sempre e o nunca se tocassem
no rubor de bocas circulares
em combustão contínua.






BL
04.02.26















domingo, 1 de fevereiro de 2026

Geometria da fome

 







Rasgámos o silêncio
como quem acende a pele por dentro
e
no lume breve dos dedos
inventámos margens
onde cabia o mundo.

Entre o sopro e a vertigem
a noite abriu-se em frutos lentos
e cada sombra era um nome
que aprendíamos com a boca.


Desatámos o peso do tempo
numa dança de veias despertas
e o chão
cúmplice
cedeu
à promessa dos nossos passos.


Assim
de gesto em gesto
colhemos o que tremia no ar.


A luz ainda por nascer
e o corpo inteiro
a dizer-se.





BL
01.02.26