sábado, 3 de janeiro de 2026

Saída por dentro

 







O excesso que de ti guardo
cresce como eco
num corredor sem portas.
E cada passo que dou
é só mais um círculo
dentro do mesmo círculo.

Dói-me esta clareza afiada
esta lucidez 
[que não perdoa]
que ilumina demais o que eu queria esquecer
e me obriga a ver
o que ainda te pertence.

Procuro a saída 
com as mãos estendidas
mas descubro que o labirinto
não é feito de muros:
é feito de memórias.
E memórias não se derrubam. 
Atravessam-se.

Talvez a porta esteja
onde a dor afrouxa
onde o peso se transforma em gesto
onde o que sobra de ti
deixa finalmente espaço
para mim.

E quando eu lá chegar 
não será fuga.
Será retorno.

Não a ti.
Mas ao que restou de mim
depois de te perder.



BL

03.01.26






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