sábado, 7 de fevereiro de 2026

O instante que arde

 



o tempo
inclina-se
num sopro
de fogo.

há um ponto
— ínfimo —
onde tudo
se incendeia.

a pele
da sombra
treme
como se soubesse
o que vem.

o ar
abre-se
num clarão
que não escolhe
testemunhas.

e eu
permaneço
no centro
do lume
a ouvir
o silêncio
arder.





BL
07.02.26















quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Circular

 




Pela vereda
rasguei neblinas
e costurei horizontes

bebi silêncios
e plantei tempestades.

 

Apoiei o rosto no vento
e toquei o sal das dunas

atravessei veias antigas
e deixei memórias à deriva
amanheci na escuridão
e desorientei verões.

 

E
no regresso
o compasso das horas aproxima o ocaso do primeiro lume
como se o sempre e o nunca se tocassem
no rubor de bocas circulares
em combustão contínua.






BL
04.02.26















domingo, 1 de fevereiro de 2026

Geometria da fome

 






Rasgámos o silêncio
como quem acende a pele por dentro
e
no lume breve dos dedos
inventámos margens
onde cabia o mundo.

Entre o sopro e a vertigem
a noite abriu-se em frutos lentos
e cada sombra era um nome
que aprendíamos com a boca.


Desatámos o peso do tempo
numa dança de veias despertas
e o chão
cúmplice
cedeu
à promessa dos nossos passos.


Assim
de gesto em gesto
colhemos o que tremia no ar.


A luz ainda por nascer
e o corpo inteiro
a dizer-se.





BL
01.02.26








sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Espirais de névoa

 




neblina branca 

a dissolver-se 

em espirais 

 

o mundo 

esquece o peso 

por instantes 

 

e tudo o que fica 

é um gesto leve 

a desaparecer






BL

30.01.26








domingo, 18 de janeiro de 2026

Esse milímetro que nos separa

 







Eu sinto-te
antes de te tocar
como quem reconhece o calor de uma chama.


Aproximo-me
devagar
porque cada gesto teu
é um lugar onde eu ainda não estive
e quero aprender o caminho
sem pressa.

 

Somos dois corpos a adivinharem-se
a medirem o pulso um do outro
sem nunca encostarem a pele


como se o toque fosse uma promessa
que se cumpre apenas quando o mundo adormece.

 

E
no entanto
existem momentos
em que quase te alcanço
o milímetro em que cabe quase tudo:
o que não digo
o que tu calas
o que tememos
sem admitir.

 

Se algum dia o espaço ceder
se o milímetro se render
não sei se o universo vai expandir
ou colapsar.

 

Mas sei que [por um instante]
o centro dele vai caber na palma da tua mão
e na minha.





BL

18.01.26






segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

A persistência do invisível









Há um fundo secreto
onde a solidão se recolhe.


Um lugar que não pede nome.
Pulsa
devagar
como um coração cansado.

 

Procuro sinais de que não caminho perdida.
Recolho migalhas de sentido
gestos mínimos
que me provam que ainda existo.

 

Mas o silêncio insiste.
Cresce
como que uma sombra que me conhece de cor.

E diz que a profundidade não tem fundo.

 

Então
penso quanto posso.
Teço argumentos
frágeis como fios de luz
para acreditar que não passo pela vida ao abandono.

 

E
nesse quase nada
há uma chama que não se explica
uma espécie de resistência

um murmúrio que diz que mesmo na solidão absoluta
existe algo que respira
algo que não sei se é meu.








BL
12.01.26








domingo, 11 de janeiro de 2026

Porque não há retorno

 







Existe um instante 
em que tudo se apaga
e o mundo recua
como se temesse 
o nosso nome.

Somos só nós
e o silêncio imóvel
um corredor estreito onde o fim respira
devagar.

Caminhamos
porque não há retorno
e a solidão acompanha quem parte
ao abandono.





BL
11.01.26