sábado, 21 de fevereiro de 2026

Íngreme

 





Avança sem bússola
um corpo que se adivinha apenas pelo rumor do chão.

 

Procura o intervalo onde a luz se desvia
e ali pousa
como quem aprende a demorar-se no indizível.

 

Sobe degraus que se desfazem
desce outros que nunca terminam
acolhe o silêncio que se esconde nas paredes gastas.

 

Não aceita promessas de passagem
nem o teatro de mãos

prontas a medirem afetos. Prefere o gesto que nasce sem testemunhas
a ternura que não exige troféus.

 

Segue assim.
Entre o quase e o ainda não
entre a sombra que o persegue
e a sombra que o protege.

 

Um itinerário que se inventa a cada passo
imprevisível
como quem aprende a existir

sem pedir licença.




BL

21.02.26





terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Poema

 






Um poema pode ser isso. Coisa que se apaga
enquanto indica o caminho

um risco de carvão
a tremer

no papel gasto.

 

Há quem o leia como mapa.
Ou quem o escute como vento.
Mas ele é somente

este gesto breve
de quem tenta acender um rumo
com a cinza que lhe sobra.

 

E
no entanto
mesmo a desfazer-se
mesmo a perder o contorno
ele aponta.

Para o que ainda resta
de quem o escreve.





BL

17.02.26






segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Mapa breve


 





Neste texto gasto
existe um mapa desenhado a carvão.

Relato da viagem
que fiz com as mãos vazias
seguindo o rasto de um barco
que partiu antes de mim.

O silêncio a sobrar. Escrevo
apenas para lembrar
que houve um porto
um nome
um gesto de partida.


Ainda que nenhum barco regresse.




BL

16.02.26





sábado, 14 de fevereiro de 2026

Quebro o verso

 




 

Quebro o verso
para que o poema respire fundo
no espaço em branco
e deixe o silêncio trabalhar
a favor do ritmo.

 

Quebro a frase
para que o sentido escorra
devagar
e aprenda a ouvir
o intervalo entre duas ondas.

 

Deixo que o branco
se estenda um pouco mais.

Às vezes
é no vazio
que a palavra encontra
o seu próprio eco.

 

Abro fendas
onde já houvera pontuação
e nelas deixo entrar
o ar fresco
de um pensamento que ainda nasce.

 


quando o ritmo hesita
não o apresso.
 

Também existe música
no passo que falha
e recomeça.




BL

14.02.26
















segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Azul silêncio

 






Naquele tempo
prevalecia uma voz
rouca

e uns olhos
azuis‑relâmpago

que atravessavam a sala
como quem rasga
um véu antigo

a deixarem no ar
um cheiro a chuva
e promessas
que ninguém ousava nomear.


As palavras vinham
lentas
carregadas de uma fadiga antiga
e de um lume secreto

uma verdade
a tremer
para nascer.

 

E eu
sentada à beira
do silêncio

aprendia a escutar
o que não se dizia

como quem recolhe
migalhas de luz
num chão
que desaprendeu o sol.


Havia noites
em que a voz falhava.


Mas os olhos
[ azuis-relâmpago ]
continuavam a incendiar
o escuro

como se soubessem
que a memória
é feita de clarões breves
e não de eternidades.





BL

09.02.26






domingo, 8 de fevereiro de 2026

Cicatriz de luz


 




relâmpago breve
no centro
do silêncio.

a cor
desaba
como quem revela
um segredo antigo.

o gesto
[ súbito ]
abre fendas
no ar imóvel.

a luz
transfigura
o que resta
de sombra
e deixa
um rasto
que não se explica.

tudo arde
num instante
que não volta
mas permanece
como cicatriz
de claridade.




BL

08.02.26








sábado, 7 de fevereiro de 2026

O instante que arde


 





o tempo
inclina-se
num sopro
de fogo.

há um ponto
[ ínfimo ]
onde tudo
se incendeia.

a pele
da sombra
treme
como se soubesse
o que vem.

o ar
abre-se
num clarão
que não escolhe
testemunhas.

e eu
permaneço
no centro
do lume
a ouvir
o silêncio
arder.





BL
07.02.26