Nenhuma água conserva o rio.
Nenhuma estrela demora a noite.
Sobre a pedra vazia
esquece-se uma luz
entre as folhas.
Também o tempo
pousa no silêncio.
BL
08.10.26
"A minha resistência / à morte do pensamento." Fiama Hasse Pais Brandão
Nenhuma água conserva o rio.
Nenhuma estrela demora a noite.
Sobre a pedra vazia
esquece-se uma luz
entre as folhas.
Também o tempo
pousa no silêncio.
BL
08.10.26
O homem subia devagar
com o azul a escorrer dos dedos.
Cada gesto seu era uma pergunta
que o universo respondia em silêncio
como se a luz fosse
um fruto que só amadurece
no silêncio.
O homem tocava o ar
e o ar acendia‑se.
Uma pequena febre de cor
trémula
no limiar das nuvens.
Ninguém sabia o nome do homem.
Mas as aves pousavam nos seus ombros
como se reconhecessem a origem do voo.
Alguns juravam que ele não existia.
Que era só o modo
como o mundo se imaginava a si mesmo.
Mas havia noites
em que uma linha de luz atravessava o escuro
como um pensamento inaugural.
E então compreendíamos.
Não era o céu
aquilo que ele pintava.
Era o invisível
a tentar aprender a ser mundo.
BL
04.10.26
Há também um corpo feito de margens
e de ausência
um corpo que não sabe se é nascente
ou falha tectónica
e que se inclina
para ouvir o que o silêncio não teve coragem de dizer.
Quando a noite encosta o seu rosto
à respiração da terra
o tempo torna-se líquido
uma espécie de febre imóvel
onde cada coisa é só metade do que poderia ter sido.
Resta uma criança de sal
com a boca cheia de mapas incompletos
a desenhar no ar
o contorno de um maio que nunca aconteceu.
BL
27.09.26
Há sombras que não resistem.
Em tudo o que alterei
deixei atrás
títulos e endereços
risquei o esforço
de inventar
aquela que não sou.
BL
14.09.26
Céu suspenso
grafite.
Pássaros riscam o ar.
Traços sem lugar
medindo o silêncio.
A chuva
fio
oblíquo
carregando cinzas.
E tudo migra
sem destino.
BL
12.09.26
Não tenho capa. Só o gesto de nascer do teu silêncio.
BL
12.09.26