domingo, 18 de janeiro de 2026

Esse milímetro que nos separa

 







Eu sinto-te
antes de te tocar
como quem reconhece o calor de uma chama.


Aproximo-me
devagar
porque cada gesto teu
é um lugar onde eu ainda não estive
e quero aprender o caminho
sem pressa.

 

Somos dois corpos a adivinharem-se
a medirem o pulso um do outro
sem nunca encostarem a pele


como se o toque fosse uma promessa
que se cumpre apenas quando o mundo adormece.

 

E
no entanto
existem momentos
em que quase te alcanço
o milímetro em que cabe quase tudo:
o que não digo
o que tu calas
o que tememos
sem admitir.

 

Se algum dia o espaço ceder
se o milímetro se render
não sei se o universo vai expandir
ou colapsar.

 

Mas sei que [por um instante]
o centro dele vai caber na palma da tua mão
e na minha.





BL

18.01.26






segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

A persistência do invisível









Há um fundo secreto
onde a solidão se recolhe.


Um lugar que não pede nome.
Pulsa
devagar
como um coração cansado.

 

Procuro sinais de que não caminho perdida.
Recolho migalhas de sentido
gestos mínimos
que me provam que ainda existo.

 

Mas o silêncio insiste.
Cresce
como que uma sombra que me conhece de cor.

E diz que a profundidade não tem fundo.

 

Então
penso quanto posso.
Teço argumentos
frágeis como fios de luz
para acreditar que não passo pela vida ao abandono.

 

E
nesse quase nada
há uma chama que não se explica
uma espécie de resistência

um murmúrio que diz que mesmo na solidão absoluta
existe algo que respira
algo que não sei se é meu.








BL
12.01.26








domingo, 11 de janeiro de 2026

Porque não há retorno

 







Existe um instante 
em que tudo se apaga
e o mundo recua
como se temesse 
o nosso nome.

Somos só nós
e o silêncio imóvel
um corredor estreito onde o fim respira
devagar.

Caminhamos
porque não há retorno
e a solidão acompanha quem parte
ao abandono.





BL
11.01.26














quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

O frágil rumor do começo

 





E então
quando o silêncio pousa
na pele do instante
erguemos o gesto que antecede o brilho
como quem recolhe o mundo
antes de o nomear.

Existe um fio de claridade
a desenhar o contorno do que ainda não nasceu.

Caminhamos por ele
devagar
para não ferir
o frágil rumor do começo.

Porque tudo é fronteira
quando a manhã se inclina
sobre nós.

E o que vemos 
[ou julgamos ver]
é somente o limite
a aprender
a ser luz.





BL
07.01.26







terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Em transparências de âmbar








Na dobra secreta
da página
germinam constelações de tinta
a deslizarem pela pele
do papel
como se cada sílaba fosse um gesto antigo
a reacender o lume
das primeiras coisas.

O poema ergue-se então
frágil
mineral
um negativo de luz
onde o tempo repousa
em transparências de âmbar.

E caminhamos dentro dele
entre aromas de hortelã
e ramos que se inclinam
para ouvir um rumor
[o nosso nome]
ainda por inventar.

Ali
a noite abre a boca
num beijo a saber a terra molhada
e o silêncio
[esse animal paciente ]
encosta-se ao nosso ombro
como quem guarda o mundo
antes de o pronunciar. 






BL
06.01.26















domingo, 4 de janeiro de 2026

Tocam-se distâncias


 




Escreve-se o corpo 
no intervalo das sombras
onde o silêncio arde 
devagar
como quem aprende a respirar o nome do outro.


Existe um lume antigo
a crescer nas veias
um rumor de marés 
que regressam sempre
ao lugar onde a pele se lembra.


Tocam-se distâncias.
Longas.
Febris.
Quase infinitas.

E nelas ergue-se o impulso 
onda que não conhece fronteira
fome que se dobra sobre si mesma
até ser vertigem.

E quando a noite se inclina
há um gesto que persiste.
O de procurar
ainda
o que falta no espaço exato
onde dois silêncios se tocam
e incendeiam tudo.






BL
04.01.26









sábado, 3 de janeiro de 2026

Saída por dentro

 







O excesso que de ti guardo
cresce como eco
num corredor sem portas.
E cada passo que dou
é só mais um círculo
dentro do mesmo círculo.

Dói-me esta clareza afiada
esta lucidez 
[que não perdoa]
que ilumina demais o que eu queria esquecer
e me obriga a ver
o que ainda te pertence.

Procuro a saída 
com as mãos estendidas
mas descubro que o labirinto
não é feito de muros:
é feito de memórias.
E memórias não se derrubam. 
Atravessam-se.

Talvez a porta esteja
onde a dor afrouxa
onde o peso se transforma em gesto
onde o que sobra de ti
deixa finalmente espaço
para mim.

E quando eu lá chegar 
não será fuga.
Será retorno.

Não a ti.
Mas ao que restou de mim
depois de te perder.



BL

03.01.26