quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

O frágil rumor do começo

 





E então
quando o silêncio pousa
na pele do instante
erguemos o gesto que antecede o brilho
como quem recolhe o mundo
antes de o nomear.

Existe um fio de claridade
a desenhar o contorno do que ainda não nasceu.

Caminhamos por ele
devagar
para não ferir
o frágil rumor do começo.

Porque tudo é fronteira
quando a manhã se inclina
sobre nós.

E o que vemos 
[ou julgamos ver]
é somente o limite
a aprender
a ser luz.





BL
07.01.26







terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Em transparências de âmbar








Na dobra secreta
da página
germinam constelações de tinta
a deslizarem pela pele
do papel
como se cada sílaba fosse um gesto antigo
a reacender o lume
das primeiras coisas.

O poema ergue-se então
frágil
mineral
um negativo de luz
onde o tempo repousa
em transparências de âmbar.

E caminhamos dentro dele
entre aromas de hortelã
e ramos que se inclinam
para ouvir um rumor
[o nosso nome]
ainda por inventar.

Ali
a noite abre a boca
num beijo a saber a terra molhada
e o silêncio
[esse animal paciente ]
encosta-se ao nosso ombro
como quem guarda o mundo
antes de o pronunciar. 






BL
06.01.26















domingo, 4 de janeiro de 2026

Tocam-se distâncias


 




Escreve-se o corpo 
no intervalo das sombras
onde o silêncio arde 
devagar
como quem aprende a respirar o nome do outro.


Existe um lume antigo
a crescer nas veias
um rumor de marés 
que regressam sempre
ao lugar onde a pele se lembra.


Tocam-se distâncias.
Longas.
Febris.
Quase infinitas.

E nelas ergue-se o impulso 
onda que não conhece fronteira
fome que se dobra sobre si mesma
até ser vertigem.

E quando a noite se inclina
há um gesto que persiste.
O de procurar
ainda
o que falta no espaço exato
onde dois silêncios se tocam
e incendeiam tudo.






BL
04.01.26









sábado, 3 de janeiro de 2026

Saída por dentro

 







O excesso que de ti guardo
cresce como eco
num corredor sem portas.
E cada passo que dou
é só mais um círculo
dentro do mesmo círculo.

Dói-me esta clareza afiada
esta lucidez 
[que não perdoa]
que ilumina demais o que eu queria esquecer
e me obriga a ver
o que ainda te pertence.

Procuro a saída 
com as mãos estendidas
mas descubro que o labirinto
não é feito de muros:
é feito de memórias.
E memórias não se derrubam. 
Atravessam-se.

Talvez a porta esteja
onde a dor afrouxa
onde o peso se transforma em gesto
onde o que sobra de ti
deixa finalmente espaço
para mim.

E quando eu lá chegar 
não será fuga.
Será retorno.

Não a ti.
Mas ao que restou de mim
depois de te perder.



BL

03.01.26






sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Entre o lume e a sombra

 




e se o lume que deixas nos meus ombros
for apenas sombra a aprender a respirar?

ainda assim
regresso 

porque há noites que só existem
quando o teu nome treme nelas





BL
02.01.26










quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Poema aceso no interior dos meus olhos

 



eu caminhava dentro do silêncio
um silêncio espesso que me envolvia como um manto esquecido
e tropeçava nos contornos da tua ausência
como quem procura luz num quarto sem portas

era cega
tão cega quanto a noite que recusa estrelas
e ainda assim sentia o teu nome pulsar no ar
um sopro que me puxava para a beira do teu abismo

tentava guardar-te nas minhas mãos transparentes
como se a pele pudesse deter a queda
como se o gesto pudesse reinventar o destino

e no fundo mais fundo do pensamento
tu regressavas sempre
poema aceso no interior dos meus olhos
flor secreta que abria magnólias no meu corpo







BL
01.01.26











terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Entre as margens onde o vento se afia


 




entre as margens onde o vento se afia

erguem‑se passos antigos
ecos de batalhas que nunca aprenderam a morrer.

alguém murmura:

coloca a noite sobre a pele
deixa que o lume secreto dos ossos
te conduza pelos corredores do invisível.

há um rumor de aves que não dormem
um pulsar escondido no fundo da água
como se cada gota guardasse
a memória de um voo interrompido.

e tu segues —
com o silêncio a abrir caminho
com a sombra a ensinar-te
que toda a viagem é também ferida
e toda a ferida [se escutada]
é uma porta para o regresso do mundo.




BL

30.12.25