sábado, 28 de março de 2026

Pó e pedras

 



Não sem que olhes

mais uma vez

a janela perdida entre escombros.


Os teus olhos a arderem sobre o pó.

Os teus pés rasgados sobre as pedras.

[força quieta

quase sísmica]

 

Diante de ti

a realidade é agora

um mundo envelhecido de silêncio.

 

Não existem metáforas soterradas.

 

À distância

o tempo.

Parado.

 

Não se é criança

quando o tempo

longínquo

parado

desaba

sem aviso

diante de ti.

 

Cresces

quando o mundo te empurra

para dentro de ti.

Quando te fecha uma porta

e te deixa no lado errado.

 

Cresces

quando o mundo te obriga

a ficar de pé

entre ruínas.

 

À espera de que algum fragmento

ainda saiba dizer futuro.





BL

28.03.26






sexta-feira, 27 de março de 2026

Matéria íntima

 








São eles
os restos
e talvez o que deixaste neles
quem regressa
quando a casa se cala.
Arrastam-se pelo chão
animais feridos
farejam-te o pulso
procuram o sal
que esqueceste nos cantos da noite.

 

São eles
os restos
e talvez o que deixaste neles
quem te chama pelo nome
com vozes de ferrugem.
Abrem portas que juraste trancadas
remexem gavetas
onde dormem cartas sem rosto
e espalham pelo corredor
as migalhas do que foste.

 

Aproximam-se
devagar
com a paciência dos que sabem esperar.
Sentam-se à beira do teu corpo
tocam-te o ombro
com dedos de pó e de abandono.
Recolhem
um a um
os pedaços que deixaste cair
em madrugadas
que não voltam.




BL

27.03.26






segunda-feira, 23 de março de 2026

Do mal, o menos

 


 




Do mal o menos
repetia
baixinho
o homem que alimentava pombos
com migalhas de pão seco.

 

As aves vinham
confiantes
como se cada migalha fosse a promessa
de que o mundo
ainda podia ser simples.

 

O homem observava o voo breve
as asas
a riscarem o ar
a escreverem
sem tinta
uma esperança discreta.

 

E
enquanto o pão se desfazia
entre os dedos gastos
o homem pensava que talvez a vida
fosse isso mesmo.

Um gesto pequeno
um cuidado anónimo
um instante de paz
no meio do ruído.

 

Do mal o menos
repetia.

 

E
naquele murmúrio
cabia tudo o que ainda o mantinha de pé.






BL
23.03.26





sábado, 21 de março de 2026

A arte de partir

 





Quem me dera
conseguir
part
ir
sim
assim
sussurro de desapego
rasto breve
de um lugar.

 

Ir
sem o peso
do que fica
sem ecos
do que nunca disse
sem esta âncora
que insiste
em chamar-me
para voltar.

 
Quem me dera
aprender a deixar ir
a abrir a janela
e aceitar o vento
sem medo
do que o vento leva
sem medo
do que lhe sobra.

 

Talvez
um dia
o gesto seja simples.
Dar um passo
respirar
e caber
inteira
no espaço que se abrir.


Quando aprender a [part]ir.




BL

21.03.26





Geometria do intangível

 





No íntimo da luz
a transparência da cor.


Tudo vibra
num silêncio líquido
como se o ar respirasse
por dentro das formas.


Há um rumor de brilho
na superfície do tempo
um sopro
a dissolver fronteiras.


O invisível inclina-se
devagar
para tocar o instante que o revela.

 

A claridade desdobra-se
suave
interminável
numa dança que não procura sentido. Inventa-o
entre aquilo que vemos
e o que somente pressentimos.





BL
21.03.26






 

quinta-feira, 19 de março de 2026

A botânica dos ombros

 

The Wilds 2022 - Sarah Jarrett





Não deixei pássaros ao abandono.

Cresceram-me folhas nos ombros

quando a borboleta voou de um dente-de-leão.

 

A pele abria-me pequenas janelas de luz

por onde o vento entrava devagar.

Aprendia a tocar um nome esquecido.

 

As raízes chamavam-me pelos pulsos

e cada passo deixava no chão

um eco de pétalas indecisas

metade silêncio

metade voo.

 

Não deixei pássaros ao abandono.

Foram eles que me ensinaram

a guardar o céu nos ossos

e a ouvir o que floresce

no lado secreto das horas.





BL

19.03.26






No lado de dentro

 

FOTO DE JL






No centro imóvel da noite
o corpo secreto
rumina florestas submersas
onde as folhas ardem em silêncio
e cada sombra aprende a vestir o rosto que perdeu.

 

Há um rumor de pedra líquida
a escorrer pelas veias do tempo
como se o mundo respirasse por fendas
e o sonho fosse apenas um animal cego
a procurar o seu nome dentro da terra.

 

E
quando o silêncio desperta
ergue do chão um farol de cinzas vivas
que atravessa o peito do mundo
como um pássaro
a recolher no seu voo
a última máscara do fogo.
 

 

E no fim do labirinto (in)quieto
surge um sopro de claridade
a dobrar o horizonte por dentro
como se o mundo fosse um navio vazio
onde a memória acende raízes de vento.





BL
19.03.26











terça-feira, 10 de março de 2026

A respiração do silêncio

 





A luz inclina‑se.

Rasga.

Abandona.

 

Olhos fechados

dentro de olhos fechados.

A suspensão do ouro.

 

Há um rumor de eternidade preso às paredes.

Um sopro que não sei se é meu

ou do tempo que me observa

imóvel

à espera de que eu me desfaça.




BL

10.03.26





 

 

 

 

quinta-feira, 5 de março de 2026

O ofício de desenhar o vento

  



 

 

Todos os nomes aprenderam a flutuar.
Desabitaram o teu rosto.
Pássaros que descobrem
que o céu é maior
do que o ninho.

 

Sobrou o silêncio.
Eco de água pousado na pele

e a memória
onde ainda te procuro

devagar.

 

As palavras
órfãs
deram às mãos o ofício de te desenhar.
Linha a linha
como quem tenta reconstruir o vento.

 

E
no entanto
há um lume que persiste.

Um rumor de marés [por dentro]
como se o teu nome [mesmo ausente]
continuasse a acender o mundo.










BL
05.03.26










sábado, 28 de fevereiro de 2026

Fé de areia

 


Foto de RL




Somos feitos de fendas silenciosas
essas que fingimos não ouvir
enquanto o mundo nos atravessa
como lâminas que aprenderam a ser vento.

Costuramos a pele com promessas gastas
na esperança de que algum fio invisível
nos devolva o contorno
que perdemos entre um gesto e o outro.

Guardamos crenças que mal cabem nas mãos
pequenos rituais de sobrevivência
que inventamos para admitir
que o incurável também pode florescer.

E quem somos?

Somos apenas ecos de água
correndo por dentro de pedras cansadas
à espera de que alguma maré distraída
nos devolva ao mar
de onde nunca deixámos de vir.




BL

28.02.26







domingo, 22 de fevereiro de 2026

Antes do sol


 

Foto de JL



Quando a manhã pousar nos teus ombros 

trarei comigo o rumor das folhas 

que dançam antes de o dia nascer.

 

Falarei da água quieta 

onde a lua se despede devagar 

e do brilho tímido 

que acorda nos telhados.

 

Contar-te-ei do voo lento das andorinhas 

que riscam o céu como promessas 

e do perfume leve 

que a noite esquece no ar.

 

E talvez então percebas 

que tudo o que renasce em ti 

também desperta em mim 

como um segredo que o sol 

ainda não aprendeu a guardar.




BL

22.02.26






sábado, 21 de fevereiro de 2026

Íngreme

 


Foto de JL



Avança sem bússola
um corpo que se adivinha apenas pelo rumor do chão.

 

Procura o intervalo onde a luz se desvia
e ali pousa
como quem aprende a demorar-se no indizível.

 

Sobe degraus que se desfazem
desce outros que nunca terminam
acolhe o silêncio que se esconde nas paredes gastas.

 

Não aceita promessas de passagem
nem o teatro de mãos

prontas a medirem afetos. Prefere o gesto que nasce sem testemunhas
a ternura que não exige troféus.

 

E assim segue.
Entre o quase e o ainda não
entre a sombra que o persegue
e a sombra que o protege.

 

Um itinerário que se inventa a cada passo
imprevisível
como quem aprende a existir

sem pedir licença.




BL

21.02.26





terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Poema

 








Um poema pode ser isso. Coisa que se apaga
enquanto indica o caminho

um risco de carvão
a tremer

no papel gasto.

 

Há quem o leia como mapa.
Ou quem o escute como vento.
Mas ele é somente

este gesto breve
de quem tenta acender um rumo
com a cinza que lhe sobra.

 

E
no entanto
mesmo a desfazer-se
mesmo a perder o contorno
ele aponta.

Para o que ainda resta
de quem o escreve.





BL

17.02.26






segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Mapa breve


 Foto de JL





Neste texto gasto
existe um mapa desenhado a carvão.

Relato da viagem
que fiz com as mãos vazias
seguindo o rasto de um barco
que partiu antes de mim.

O silêncio a sobrar. Escrevo
apenas para lembrar
que houve um porto
um nome
um gesto de partida.


Ainda que nenhum barco regresse.




BL

16.02.26





sábado, 14 de fevereiro de 2026

Quebro o verso

 






 

Quebro o verso
para que o poema respire fundo
no espaço em branco
e deixe o silêncio trabalhar
a favor do ritmo.

 

Quebro a frase
para que o sentido escorra
devagar
e aprenda a ouvir
o intervalo entre duas ondas.

 

Deixo que o branco
se estenda um pouco mais.

Às vezes
é no vazio
que a palavra encontra
o seu próprio eco.

 

Abro fendas
onde já houvera pontuação
e nelas deixo entrar
o ar fresco
de um pensamento que ainda nasce.

 


quando o ritmo hesita
não o apresso.
 

Também existe música
no passo que falha
e recomeça.




BL

14.02.26
















segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Azul silêncio

 






Naquele tempo
prevalecia uma voz
rouca

e uns olhos
azuis‑relâmpago

que atravessavam a sala
como quem rasga
um véu antigo

a deixarem no ar
um cheiro a chuva
e promessas
que ninguém ousava nomear.


As palavras vinham
lentas
carregadas de uma fadiga antiga
e de um lume secreto

uma verdade
a tremer
para nascer.

 

E eu
sentada à beira
do silêncio

aprendia a escutar
o que não se dizia

como quem recolhe
migalhas de luz
num chão
que desaprendeu o sol.


Havia noites
em que a voz falhava.


Mas os olhos
[ azuis-relâmpago ]
continuavam a incendiar
o escuro

como se soubessem
que a memória
é feita de clarões breves
e não de eternidades.





BL

09.02.26






domingo, 8 de fevereiro de 2026

Cicatriz de luz


 




relâmpago breve
no centro
do silêncio.

a cor
desaba
como quem revela
um segredo antigo.

o gesto
[ súbito ]
abre fendas
no ar imóvel.

a luz
transfigura
o que resta
de sombra
e deixa
um rasto
que não se explica.

tudo arde
num instante
que não volta
mas permanece
como cicatriz
de claridade.




BL

08.02.26








sábado, 7 de fevereiro de 2026

O instante que arde


 





o tempo
inclina-se
num sopro
de fogo.

há um ponto
[ ínfimo ]
onde tudo
se incendeia.

a pele
da sombra
treme
como se soubesse
o que vem.

o ar
abre-se
num clarão
que não escolhe
testemunhas.

e eu
permaneço
no centro
do lume
a ouvir
o silêncio
arder.





BL
07.02.26















quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Circular

 





Pela vereda
rasguei neblinas
e costurei horizontes

bebi silêncios
e plantei tempestades.

 

Apoiei o rosto no vento
e toquei o sal das dunas

atravessei veias antigas
e deixei memórias à deriva
amanheci na escuridão
e desorientei verões.

 

E
no regresso
o compasso das horas aproxima o ocaso do primeiro lume
como se o sempre e o nunca se tocassem
no rubor de bocas circulares
em combustão contínua.






BL
04.02.26















domingo, 1 de fevereiro de 2026

Geometria da fome

 







Rasgámos o silêncio
como quem acende a pele por dentro
e
no lume breve dos dedos
inventámos margens
onde cabia o mundo.

Entre o sopro e a vertigem
a noite abriu-se em frutos lentos
e cada sombra era um nome
que aprendíamos com a boca.


Desatámos o peso do tempo
numa dança de veias despertas
e o chão
cúmplice
cedeu
à promessa dos nossos passos.


Assim
de gesto em gesto
colhemos o que tremia no ar.


A luz ainda por nascer
e o corpo inteiro
a dizer-se.





BL
01.02.26








sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Espirais de névoa

 


Foto de JL



neblina branca 

a dissolver-se 

em espirais 

 

o mundo 

esquece o peso 

por instantes 

 

e tudo o que fica 

é um gesto leve 

a desaparecer






BL

30.01.26








domingo, 18 de janeiro de 2026

Esse milímetro que nos separa


 









Eu sinto-te
antes de te tocar
como quem reconhece o calor de uma chama.


Aproximo-me
devagar
porque cada gesto teu
é um lugar onde eu ainda não estive
e quero aprender o caminho
sem pressa.

 

Somos dois corpos a adivinharem-se
a medirem o pulso um do outro
sem nunca encostarem a pele


como se o toque fosse uma promessa
que se cumpre apenas quando o mundo adormece.

 

E
no entanto
existem momentos
em que quase te alcanço
o milímetro em que cabe quase tudo:
o que não digo
o que tu calas
o que tememos
sem admitir.

 

Se algum dia o espaço ceder
se o milímetro se render
não sei se o universo vai expandir
ou colapsar.

 

Mas sei que [por um instante]
o centro dele 
vai caber

na palma da tua mão

e na minha.





BL

18.01.26






segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

A persistência do invisível










Há um fundo secreto
onde a solidão se recolhe.


Um lugar que não pede nome.
Pulsa
devagar
como um coração cansado.

 

Procuro sinais de que não caminho perdida.
Recolho migalhas de sentido
gestos mínimos
que me provam que ainda existo.

 

Mas o silêncio insiste.
Cresce
como que uma sombra que me conhece de cor.

E diz que a profundidade não tem fundo.

 

Então
penso quanto posso.
Teço argumentos
frágeis como fios de luz
para acreditar que não passo pela vida ao abandono.

 

E
nesse quase nada
há uma chama que não se explica
uma espécie de resistência

um murmúrio que diz que mesmo na solidão absoluta
existe algo que respira.
Algo que não sei se é meu.








BL
12.01.26








domingo, 11 de janeiro de 2026

Porque não há retorno

 







Existe um instante 
em que tudo se apaga
e o mundo recua
como se temesse 
o nosso nome.

Somos só nós
e o silêncio imóvel
um corredor estreito onde o fim respira
devagar.

Caminhamos
porque não há retorno
e a solidão acompanha quem parte
ao abandono.





BL
11.01.26