sábado, 3 de junho de 2017

La Roulette Rustre


Consegues ouvir?



A inquietude do vento
em busca de um instante vagaroso.

As palavras a estremecerem
a nomearem a noção do olhar na espuma das águas

rio improvável à sombra de pontes
atravessadas por uma nesga de sol.

A luz é tardia
e não dormem os pássaros no diálogo das árvores.

Ao longe
vozes que chegam em soluços
de poentes.

O tempo a parar a meio
do declive
no outro lado do cais.

Lentamente me abrigo no rosto
quente do crepúsculo

o perfil da noite a deslizar me sobre os ombros
devolvidos à flutuação do silêncio.


Brígida Luz
03.06.17

sexta-feira, 2 de junho de 2017

A flor




Um incêndio no traço
vermelho da tatuagem. A vida

em dois lugares do tempo. A chave irrecuperável
ou a visão assimétrica do tempo perdido.

A face branca das coisas a acontecerem
os movimentos de que um homem se orgulha.

A luz
ou a luminosidade de um nome impresso na pele

no ponto de encontro entre a vida
e a morte.

A flor novíssima que recusaste proteger.

Brígida luz
02.06.17

segunda-feira, 22 de maio de 2017

A (in)certeza de um nome




Hoje regressei ao espelho das palavras
sonhadas
talvez porque abriu a primeira açucena branca
como se de asas se tratasse.


Surpreendem-me os fragmentos do olhar
que sobrevivem na memória das mãos.


Num tempo sem declives
atribuí-me um nome que alimentas de incertezas
e silêncio. Não me reconheço
quando o vejo.


Nunca me dizias dos símbolos
em que prolongavas as sombras ou atravessavas
os ventos do desassossego da alma.


Doem-me estas paredes cobertas de um tempo
a engolir a inocência dos rostos. Um a um
percorridos pelo nome que transpões
na geografia do esquecimento.


Brígida Luz
22.05.17

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Reflexos



Um quase murmúrio de água
a pousar nas minhas mãos.

Reinvento o silêncio
faço dele um rio de versos

e neles recrio o amor
e os afetos.

A sintonia dos encontros

o sonho a falar
dentro de nós.

A palavra a nascer nos contornos da sombra
a alongar-se
em dissoluções esféricas

[ longas esperas na fertilidade do tempo ]

uma luz secreta a saciar de harmonia
o lado invisível das horas

os rostos [ em desordem ] a nomearem a manhã.

Mas
como entender a ausência
na fragmentação do espelho?

Brígida Luz
17.05.17

terça-feira, 16 de maio de 2017

Apetecia-me chamar-te para dentro de um abraço

Para te sentires vivo
rasgas a tua pele desamparada
e sangras de solidão.
E a solidão dói.
Saber que atrás de uma rua vazia
virá outra rua vazia.
Que um som de passos
será somente o som dos teus passos.

É provável que num cruzamento
de águas
os teus passos escutem a memória
de um horizonte perdido onde as palavras
tinham a determinação da luz.

Dentro dos teus olhos existe um lugar recôndito
habitado por uma vida inteira.

Apetecia-me chamar-te para dentro
de um abraço
porque sinto que as tuas lágrimas
estão a secar
a deslizar para dentro do teu sorriso.
Queria tanto entender os significados
que estão dentro dessas lágrimas.

Mas o vento é forte e a árvore fustigada.
A palavra desarticula-se num tempo embaciado
de espaços vazios.

E tudo se reduz aos silêncios que nos fazem
cerrar as pálpebras e descair os lábios
numa linha horizontal e ilegível.



Brígida Luz
21.02.17