sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Por detrás da chuva

Longe de um tempo branco
comprimes o teu corpo de cinza
contra um céu vazio
uma bruma a derramar formas indefinidas
de solidão.
Dentro de ti
paisagens inacessíveis
a atravessarem-te a pele.
Fechas as pálpebras e perdes-te
em imagens
a procurares uma saída.
Estendes a mão para um nome imaginário
e julgas tocar a perfeição
[ a corroer a tua lucidez ]
O silêncio a arder-te sobre os ombros
curvados pelo tempo. Crepuscular e plúmbeo.
Nos teus olhos
a chuva a diluir um gesto de pássaro.
Ou de árvore.
Como se no teu sangue
enterrasses as raízes do esquecimento.

Brígida Luz
24.11.16

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Caiu-te aos pés um poema

Escondias nos bolsos as mãos
nuas
os olhos presos num horizonte
a recuar a recuar até ser

a indefinição de um ponto.
Choviam em teu redor folhas
em branco

aves caídas do vento
a deslocar-se sobre raízes inanimadas.
Numa intermitência das águas

caiu-te aos pés descalços um poema
fulgurante.
Subiste-o
degrau a degrau

e no teu lugar de silêncio

descobriste-lhe as linhas
esguias.

Palavras de vidro a conterem
insignificâncias.
Uma caixa cheia de abstrações.

E tu
de mãos nuas e pés descalços

no teu lugar de silêncio

medes os passos e escreves nomes indecifráveis

no reverso do poema.


Brígida Luz
16.11.16

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

De outros tempos

Um dia hei de talvez
saber explicar o insustentável gesto
em que o longe se desdobra.

Cega-me a lucidez do silêncio
nas entrelinhas das palavras em que
desarrumo os pensamentos
para atravessar o horizonte

[ poema de aves a construírem os ninhos ]

como personagem de um filme
para sempre adiado.

Lugar de paisagens antigas onde a luz
principiava.

Tempo
que já não me cabe nas mãos.

Brígida Luz
07.11.16

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Os teus olhos a chegarem devagar

Num gesto mal dormido
apoiei na mesa o tempo da espera.

Os teus olhos a chegarem devagar
em dia de azul-cinza.
O silêncio dissolvido em frases incompletas.
A manhã atirada
contra a expectativa dos dias.

E os teus olhos
em dia de azul-cinza.

Depois, os teus passos nítidos
a morrerem vagarosamente no vazio absurdo
que gelava todas as coisas
que deixavam para trás.

E eu alheada de mim
e os meus olhos presos deslumbrados
e a rua a correr em sentido inverso
perdida na neblina.

Brígida Luz
03.10.16

domingo, 25 de setembro de 2016

Setembro no teu rosto

Olhamo-nos fixamente
a sentirmo-nos indefesos por dentro
da limpidez do olhar.

As mãos a procurarem
marcas de uma verdade moldada
num clarão que rasgou o corpo

e eu impreparada
para o estranho rosto do silêncio.

Porque tudo gera silêncio
à nossa volta

aves pedras vento
e as palavras são meras conjeturas mastigadas.

Frente à casa
as árvores da memória
pilares daquele tempo em que a luz

se estende e desloca para o sono da terra a brevidade
das folhas mortas.

Olhamo-nos fixamente. E sob setembro a decair
cai a sombra no teu rosto
como um espelho. Como um espelho.


Brígida Luz
24.09.16

sábado, 10 de setembro de 2016

Era uma vez o tempo...



Rodavas sobre o teu eixo
num esforço circular para não
atravessares a verdade.
Tinhas o tempo parado na distância
e o sorriso
entre sílabas náufragas e rituais de ausência.

_ Era uma vez o tempo...

e ainda assim
segui o corpo do vento
a guardar sombras no coração das aves
e a entranhar a luz no exílio do teu olhar.

_ Era uma vez o tempo...

e a minha voz a
tropeçar na face magoada do verso
quando a tarde era somente
uma página
nas minhas mãos.

Brígida Luz
10.09.16


sábado, 27 de agosto de 2016

Na inclinação do tempo

A pedra a decair
na inclinação do tempo.
Ao fundo da solidão uma neblina espessa
chamamento de silêncios e memórias.
Da lonjura de nomes incertos
uma rua a crescer
serena e branda
como se sonhasse margens improváveis.
Há trevos de quatro folhas
e pétalas de sílabas brancas
sobre os ponteiros do crepúsculo.
Deixo-me tocar pela ilusão da árvore de passos inquietos.
Sabe de um lugar
onde a pedra sobrevive
na soleira do esquecimento.

Tudo o resto é monólogo
é deserto
no que fica por dizer.

Brígida Luz
27.08.16