quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Os teus olhos a chegarem devagar

Num gesto mal dormido
apoiei na mesa o tempo da espera.

Os teus olhos a chegarem devagar
em dia de azul-cinza.
O silêncio dissolvido em frases incompletas.
A manhã atirada
contra a expectativa dos dias.

E os teus olhos
em dia de azul-cinza.

Depois, os teus passos nítidos
a morrerem vagarosamente no vazio absurdo
que gelava todas as coisas
que deixavam para trás.

E eu alheada de mim
e os meus olhos presos deslumbrados
e a rua a correr em sentido inverso
perdida na neblina.

Brígida Luz
03.10.16

domingo, 25 de setembro de 2016

Setembro no teu rosto

Olhamo-nos fixamente
a sentirmo-nos indefesos por dentro
da limpidez do olhar.

As mãos a procurarem
marcas de uma verdade moldada
num clarão que rasgou o corpo

e eu impreparada
para o estranho rosto do silêncio.

Porque tudo gera silêncio
à nossa volta

aves pedras vento
e as palavras são meras conjeturas mastigadas.

Frente à casa
as árvores da memória
pilares daquele tempo em que a luz

se estende e desloca para o sono da terra a brevidade
das folhas mortas.

Olhamo-nos fixamente. E sob setembro a decair
cai a sombra no teu rosto
como um espelho. Como um espelho.


Brígida Luz
24.09.16

sábado, 10 de setembro de 2016

Era uma vez o tempo...



Rodavas sobre o teu eixo
num esforço circular para não
atravessares a verdade.
Tinhas o tempo parado na distância
e o sorriso
entre sílabas náufragas e rituais de ausência.

_ Era uma vez o tempo...

e ainda assim
segui o corpo do vento
a guardar sombras no coração das aves
e a entranhar a luz no exílio do teu olhar.

_ Era uma vez o tempo...

e a minha voz a
tropeçar na face magoada do verso
quando a tarde era somente
uma página
nas minhas mãos.

Brígida Luz
10.09.16


sábado, 27 de agosto de 2016

Na inclinação do tempo

A pedra a decair
na inclinação do tempo.
Ao fundo da solidão uma neblina espessa
chamamento de silêncios e memórias.
Da lonjura de nomes incertos
uma rua a crescer
serena e branda
como se sonhasse margens improváveis.
Há trevos de quatro folhas
e pétalas de sílabas brancas
sobre os ponteiros do crepúsculo.
Deixo-me tocar pela ilusão da árvore de passos inquietos.
Sabe de um lugar
onde a pedra sobrevive
na soleira do esquecimento.

Tudo o resto é monólogo
é deserto
no que fica por dizer.

Brígida Luz
27.08.16

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Moinhos de vento


Deslizávamos por um fio de palavras irreversíveis.

A morte

diziam uns.

Renegação

gritou aquele



que procurou refúgio no interior

do silêncio.



Levámos connosco a chuva de um tempo

que permaneceu

ausente

dentro de nós.



Vivemos mil vidas e



longe de um fio de palavras irreversíveis

desfiámos as frases que ficaram por dentro dos olhos

paradas

a olharem para trás.



O acaso e os afetos a moldarem-nos lugares

em barro de encantamento.



Desenrolámos as veias do tempo



e o verde de uma teia de luz a entrançar dedos indefiníveis

em folhas de impressões digitais



e moinhos de vento.



Brígida Luz

24.08.16

domingo, 14 de agosto de 2016

Ser corpo e lugar

Os violinos da tarde a gemerem
um tempo líquido
transparência verde
e infinita
lugar levíssimo a permanecer dentro da pele.

Como um eco sentado à beira
das águas que correm
voltar a ser espiral
de palavras antigas num coração de memórias
onde cabemos corpo.

Reter a dimensão do silêncio na placidez
do olhar
sem procurar as incertezas
da voz
ou a exaustão da luz
nos pássaros do poema.

Brígida Luz
14.08.16

sábado, 30 de julho de 2016

Silhuetas

Não nos consentimos
no que imperfeitamente somos
nem deitamos fora
os rostos sem voz.

Soletramo-nos em silhuetas mergulhadas num tempo
escuro e inabalável.

Em cada fio de palavras
teço a luz
que arrefece
e me arrasta à boca do silêncio.

Ausência indecifrável. Árvore a adormecer
no tremor dos ramos.

Cinge-me um vazio no horizonte
uma solidão pesada
que antecipa a densa noite
ou os nomes adiados
em que as coisas sobrevivem.

Brígida Luz
30.07.16