quarta-feira, 20 de julho de 2016

O lado errado das palavras

A distância a cair do teu olhar. Atravesso-a
sem rede
com o apelo de antes pendurado nos lábios.

Bastava-me decifrar o gemido da luz
no lado errado das palavras.

Mas existem gestos desmesurados
e absolutos

soluços do tempo
no acerto das vozes à hegemonia da noite.

Pouco a pouco
apercebo-me da vertigem da pedra.

Ao nível do chão
cega-me a visão do sol. Deixas-me tocar
os teus olhos breves. De neblina.

O teu corpo
transitório
povoado de incertezas. Recolhido na distância.

Brígida Luz
20.07.16

sexta-feira, 15 de julho de 2016

A minha pele submersa em silêncios

Não tenho como soltar dos meus olhos
as amarras de um tempo
pendurado em horas encharcadas de pássaros
e de mar
e de movimento.

Sigo o trilho das gaivotas
que transportam a luz nas nuvens da manhã
mas a noite continua a arder
e o tempo recusa-se a nascer
disperso em esquecimento.

E a minha pele submersa em silêncios
e as palavras desfeitas em infinitos grãos de areia
levados pelo vento
e os dias estilhaçados na mesmice dos espelhos
dormentes
a escorrerem pelo verso
lentamente
em gotinhas de solidão.


Brígida Luz

No cansaço do verso

No cansaço do gesto
a urgência de um tempo
por dentro dos olhos
a olhar-me por inteiro ao fundo da imagem
imprecisa e gasta.

No cansaço das mãos
a urgência de um espaço
por dentro da árvore
a sentir a sombra que me veste o corpo.

No cansaço do verso
a urgência da voz por dentro da sílaba
ou o sopro do vento no voo da palavra
mansa ou triste
que o indizível encosta ao silêncio.

Brígida Luz
15.07.16

domingo, 10 de julho de 2016

Depuração

Instantes vagarosos
quase eternos
corporizam o oásis da palavra.

Num esforço de mobilidade ascendente

[ como um diálogo em que a depuração das sombras
se entranha na palidez da folha ]

releio a absorção do mundo
a luz avança

e retrocede

levada pelo fogo lento e frágil
em que a vida se consome.

O tempo suspenso
nos ramos que atravessam o vento.

Súbita harmonia
dentro do meu olhar insuficiente.

E no cerne da alma
múltiplas linhas em íntima polifonia.

Brígida Luz
10.07.16

sexta-feira, 24 de junho de 2016

A dança dos sonhos

Reinventar no verso a raiz
de um tempo vagaroso
demorado. Dele fazer memória
como audível silêncio
partilhado.

Dar voz à utopia
estender os braços à claridade das palavras
desdobrar esquecimentos
em invisível movimento
metamorfose da luz que me liberta.

Como se a vida fosse um rio
a correr em direção ao sol
roupagens de esperança
círculos concêntricos de partidas e descobertas.

A dança dos sonhos
gestos de dentro perdidos nas esperas.

Brígida Luz
24.06.16

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Sombras de nós



Quando a cidade se faz silêncio
e o olhar uma paisagem de outrora
as marcas exibem histórias
e
de súbito
sentimos que somos grito adormecido.
Ilusória cosmética em que nos abandonamos.

Brígida Luz
23.06.16

sábado, 18 de junho de 2016

Tardia



Chego tardia àquilo
que sempre fui.
Curso de rio traçado
na fluidez de águas inquietantes.

Ergo o poema em palavras inibidas
a descerem de tempos inocentes
ou desenho pássaros no olhar resignado
de uma voz distante. A falar
de portas abertas à lucidez de um nome
que partia devagar.

O silêncio a percorrer mapas de escuridão. Sombras indecifráveis.
A solidão dos rostos que não atravessaram
a linguagem dos muros.

A luz refratada
refletida.
A luz a acontecer
num tempo muito longe daqui.

E eu a chegar
tardia.

Brígida Luz
18.06.16