quinta-feira, 23 de junho de 2016

Sombras de nós



Quando a cidade se faz silêncio
e o olhar uma paisagem de outrora
as marcas exibem histórias
e
de súbito
sentimos que somos grito adormecido.
Ilusória cosmética em que nos abandonamos.

Brígida Luz
23.06.16

sábado, 18 de junho de 2016

Tardia



Chego tardia àquilo
que sempre fui.
Curso de rio traçado
na fluidez de águas inquietantes.

Ergo o poema em palavras inibidas
a descerem de tempos inocentes
ou desenho pássaros no olhar resignado
de uma voz distante. A falar
de portas abertas à lucidez de um nome
que partia devagar.

O silêncio a percorrer mapas de escuridão. Sombras indecifráveis.
A solidão dos rostos que não atravessaram
a linguagem dos muros.

A luz refratada
refletida.
A luz a acontecer
num tempo muito longe daqui.

E eu a chegar
tardia.

Brígida Luz
18.06.16

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Desmemória de [os] deus[es]

O meu olhar de terra
preso ao gesto.
Ao esgar de dor
que sobe a estrada
lento lento.

Terra ventre árvore
perdida de folhas
e de pássaros
seca
de esperas
e de tempo.

Idade
de todas as idades
abraça o ramo
único
que lhe sobra

e o ninho
onde a alma
exausta
segura o fio de luz em que
um dia
escreveu sementes.

O meu olhar de árvore
preso ao gesto.
À mansidão do amor
que vai além da fé
e já não teme a morte.

Sopro de tudo
o gesto
que não pede nada.

Brígida Luz

terça-feira, 7 de junho de 2016

Hoje

Com os olhos puros e águas calmas
estender a duração da cor
deixar ir o coração
no silêncio da lágrima.

Não virar páginas em vão
compreender a estrada
ver a luz mais longe
reajustar os pontos finais.

Brígida Luz
07.06.16

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Tons de terra

Poder explicar as formas densas
que caem das paredes. Tons de terra
a estenderem as raízes das palavras.

A luz
a atravessar as poeiras do silêncio. Partículas
invisíveis a mancharem de penumbra

a folha que seria imaculada. O aroma limpo
da magnólia a transportar um sorriso em fuga. O tempo

doce. Adormecido. No interior
dos afetos mais generosos e sinceros.
A leve respiração do amor.

Os teus olhos de avelã
mãe
a serem o fio de voz
que me segura o olhar.

Brígida Luz
02.06.16

domingo, 22 de maio de 2016

Leves são os cardos

É p'ra ti
que escrevo este regato

superfície de prata
onde correm fragmentos das minhas mãos

a formularem sombras
ou sementes imbuídas de esperança.

Sonhar ainda palavras suspensas
em janelas de primavera

ou a cor de uns olhos
em que o tempo se perdeu.

Se ainda me levassem
as marés
pelos poentes

e as estradas quase sempre
pólen de lua cheia
e horizontes abertos sobre o mar.

Se ainda fosse um rio
a luz
que se abre todos os dias.

Brígida Luz
22.05.16

domingo, 8 de maio de 2016

A noite que choveu insónias


Desarrumar metáforas
subir à tónica da palavra
abrir janelas a jardins de luz
e de vento

banir do poema as brumas intocáveis
da noite que choveu angústias
e insónias

[ movimentos circulares em areais vulneráveis
ausência amarga
a acender urgências ]

Sonhar brilhos de espumas
na rebentação das ondas

quebrar solidões
com relógios de sol
e panos verdes.

Brígida Luz
08.05.16