terça-feira, 7 de junho de 2016

Hoje

Com os olhos puros e águas calmas
estender a duração da cor
deixar ir o coração
no silêncio da lágrima.

Não virar páginas em vão
compreender a estrada
ver a luz mais longe
reajustar os pontos finais.

Brígida Luz
07.06.16

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Tons de terra

Poder explicar as formas densas
que caem das paredes. Tons de terra
a estenderem as raízes das palavras.

A luz
a atravessar as poeiras do silêncio. Partículas
invisíveis a mancharem de penumbra

a folha que seria imaculada. O aroma limpo
da magnólia a transportar um sorriso em fuga. O tempo

doce. Adormecido. No interior
dos afetos mais generosos e sinceros.
A leve respiração do amor.

Os teus olhos de avelã
mãe
a serem o fio de voz
que me segura o olhar.

Brígida Luz
02.06.16

domingo, 22 de maio de 2016

Leves são os cardos

É p'ra ti
que escrevo este regato

superfície de prata
onde correm fragmentos das minhas mãos

a formularem sombras
ou sementes imbuídas de esperança.

Sonhar ainda palavras suspensas
em janelas de primavera

ou a cor de uns olhos
em que o tempo se perdeu.

Se ainda me levassem
as marés
pelos poentes

e as estradas quase sempre
pólen de lua cheia
e horizontes abertos sobre o mar.

Se ainda fosse um rio
a luz
que se abre todos os dias.

Brígida Luz
22.05.16

domingo, 8 de maio de 2016

A noite que choveu insónias


Desarrumar metáforas
subir à tónica da palavra
abrir janelas a jardins de luz
e de vento

banir do poema as brumas intocáveis
da noite que choveu angústias
e insónias

[ movimentos circulares em areais vulneráveis
ausência amarga
a acender urgências ]

Sonhar brilhos de espumas
na rebentação das ondas

quebrar solidões
com relógios de sol
e panos verdes.

Brígida Luz
08.05.16


sábado, 7 de maio de 2016

Maio

Resistir às águas que
de dentro para fora desassossegam as horas.

[ trajetórias sinuosas
em volta de inquietudes desabitadas ]

Acordar mais além
mais perto de si mesma
como abrigo do sol
onde tudo recomeça.

Descobrir no cântico das árvores
o vento dos sonhos
caídos na invernia dos versos.

Esquecer silêncios em turbulências
desertas

ser palavra viva
e fresca

sem nuvens por perto.

Brígida Luz
07.05.16

A convulsão das palavras

Lugar polícromo
sopro ou miragem
onde encosta a convulsão das palavras.

Caminha em círculos
sem princípio ou fim
sem limites
em torno de uma desesperança.

O silêncio.
Que se pode sobrepor ao zumbido do frigorífico.
Ou ao da arca frigorífica.
Ou aos estalidos das madeiras.
Ou às quedas dos pequenos objetos que caem ao chão
no piso de cima.

O silêncio.
Que pode ser um silêncio limpo
muito quieto
por baixo de um véu de chuva miudinha.
Música pura
dentro do pensamento.
Ou o pensamento a sorrir.

O silêncio.
Que pode ser um silêncio feroz
a vir do interior do pensamento
a latejar -lhe dentro dos ouvidos.


Brígida Luz

sexta-feira, 6 de maio de 2016

[ ... ]

A preocupação. Que deixou de ser preocupação. É que, por detrás de uma preocupação, existem possibilidades. E, dentro daquilo que passa por ela, não se vislumbram limites. É como se caminhasse em círculos, sem princípio ou fim, em torno de uma desesperança.

O silêncio. Que se pode sobrepor ao zumbido do frigorífico. Ou ao da arca frigorífica. Ou aos estalidos das madeiras. Ou às quedas dos pequenos objetos que a T vai limpando e deixando cair, no piso de cima.

O silêncio. Que pode ser um silêncio limpo, muito quieto, por baixo dos sons da chuva miudinha. Música pura, dentro do pensamento. Ou o pensamento a sorrir.

O silêncio. Que pode ser um silêncio feroz, a vir do interior do pensamento, a latejar -lhe dentro dos ouvidos.


BL