sexta-feira, 6 de maio de 2016

[ ... ]

A preocupação. Que deixou de ser preocupação. É que, por detrás de uma preocupação, existem possibilidades. E, dentro daquilo que passa por ela, não se vislumbram limites. É como se caminhasse em círculos, sem princípio ou fim, em torno de uma desesperança.

O silêncio. Que se pode sobrepor ao zumbido do frigorífico. Ou ao da arca frigorífica. Ou aos estalidos das madeiras. Ou às quedas dos pequenos objetos que a T vai limpando e deixando cair, no piso de cima.

O silêncio. Que pode ser um silêncio limpo, muito quieto, por baixo dos sons da chuva miudinha. Música pura, dentro do pensamento. Ou o pensamento a sorrir.

O silêncio. Que pode ser um silêncio feroz, a vir do interior do pensamento, a latejar -lhe dentro dos ouvidos.


BL

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Delírios

Encontrar um espaço azul
naquele ponto em que o tempo
para sob as águas.

[ Sombras suaves a flutuarem na luz ]

Deslizar de um corpo em forma de pedra.

Poder ser real
substância
imune às arestas das sílabas.
Serenar a alma
e ouvir o vento cantar.

Brígida Luz
04.05.16

sábado, 30 de abril de 2016

Caem as horas

Instalar-me na fenda
ou numa chuva de luz
o coração multiplicado
inesgotável.
Abrigar-me no silêncio
respirar cada fragmento de tempo
num final de tarde que evoca lugares
e memórias que nasceram
da terra e do mar. Persistem
flutuam neste chão que vem de dentro
fazem-se ouvir pela voz
das árvores e do vento.
Dar os passos certos
no interior das horas que caem
e se espalham nos dias.
Arrancar-me do fundo do mundo
à espera de regressar.

Brígida Luz
29.04.16

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Raízes

Existem palavras pequeninas
que tu não conheces. Palavras pequenas
sem princípio ou fim

como seiva ou raízes a crescerem no interior dos corpos.
Ou como a eternidade. Palavras como pai mãe filho amor.
A eternidade. Mas tu não

conheces a eternidade. Atravessas o tempo
coberto de nomes transitórios

cercado de silêncios inflamados
onde queimas as palavras. Pequeninas.

Brígida Luz

domingo, 17 de abril de 2016

Dissolução

Saber explicar as coisas
que doem nas vozes
da terra.
Lentamente adormecer o vento
entranhar nas raízes
sílabas antigas
e recolher o tumulto das chuvas.
Verter dos olhares palavras
impronunciáveis
porque são insuficientes as palavras
onde dissolver os silêncios.

BL – 17.04.16

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Dissonância

Abrir a janela
e atravessar a solidão da manhã
a linha liquefeita
dos verdes da folhagem.

Mover o coração
com a brisa que conduz
o fio invisível das coisas.

Entre as formas recolhidas
a rocha imprecisa
onde a luz e a realidade se misturam.

Repousam nomes no silêncio
tempo convertido em imagens
perdidas.

Há um céu possível
sonhos a rodarem
sobre eixos dissonantes.

E há a rua

translúcida

a progredir
sob os meus passos de chuva.

E eu
imersa no interior do silêncio

água parada
a deixar-me para trás.

Brígida Luz
03.04.16

domingo, 20 de março de 2016

Se eu chegar tarde à primavera


Se eu chegar tarde à primavera,
mostra-me onde fica a luz que resta
do inverno que dói
nas fendas da pele,


ou do vento
que geme ladainhas inexatas.


Se eu chegar tarde à primavera,
mostra-me onde fica
a chama da manhã no exílio dos pássaros,


ou então o silêncio profundo
da fusão das almas, na mortalidade
do tempo breve em que germina a sede
inútil e imprecisa, que antecede
o verão que há de chegar.


Brígida Luz