sábado, 30 de abril de 2016

Caem as horas

Instalar-me na fenda
ou numa chuva de luz
o coração multiplicado
inesgotável.
Abrigar-me no silêncio
respirar cada fragmento de tempo
num final de tarde que evoca lugares
e memórias que nasceram
da terra e do mar. Persistem
flutuam neste chão que vem de dentro
fazem-se ouvir pela voz
das árvores e do vento.
Dar os passos certos
no interior das horas que caem
e se espalham nos dias.
Arrancar-me do fundo do mundo
à espera de regressar.

Brígida Luz
29.04.16

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Raízes

Existem palavras pequeninas
que tu não conheces. Palavras pequenas
sem princípio ou fim

como seiva ou raízes a crescerem no interior dos corpos.
Ou como a eternidade. Palavras como pai mãe filho amor.
A eternidade. Mas tu não

conheces a eternidade. Atravessas o tempo
coberto de nomes transitórios

cercado de silêncios inflamados
onde queimas as palavras. Pequeninas.

Brígida Luz

domingo, 17 de abril de 2016

Dissolução

Saber explicar as coisas
que doem nas vozes
da terra.
Lentamente adormecer o vento
entranhar nas raízes
sílabas antigas
e recolher o tumulto das chuvas.
Verter dos olhares palavras
impronunciáveis
porque são insuficientes as palavras
onde dissolver os silêncios.

Brígida Luz – 17.04.16

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Dissonância

Abrir a janela
e atravessar a solidão da manhã
a linha liquefeita
dos verdes da folhagem.

Mover o coração
com a brisa que conduz
o fio invisível das coisas.

Entre as formas recolhidas
a rocha imprecisa
onde a luz e a realidade se misturam.

Repousam nomes no silêncio
tempo convertido em imagens
perdidas.

Há um céu possível
sonhos a rodarem
sobre eixos dissonantes.

E há a rua

translúcida

a progredir
sob os meus passos de chuva.

E eu
imersa no interior do silêncio

água parada
a deixar-me para trás.

Brígida Luz
03.04.16

domingo, 20 de março de 2016

Se eu chegar tarde à primavera


Se eu chegar tarde à primavera,
mostra-me onde fica a luz que resta
do inverno que dói
nas fendas da pele,


ou do vento
que geme ladainhas inexatas.


Se eu chegar tarde à primavera,
mostra-me onde fica
a chama da manhã no exílio dos pássaros,


ou então o silêncio profundo
da fusão das almas, na mortalidade
do tempo breve em que germina a sede
inútil e imprecisa, que antecede
o verão que há de chegar.


Brígida Luz

quinta-feira, 17 de março de 2016

Desconexão

A luz a entranhar-se
na lentidão da noite
derramada sobre o arvoredo.

Podia o silêncio acordar
e ser um murmúrio brando
uma paz interminável
a sussurrar eternidade.

E o tempo a querer ser
a voz de um tempo vivo
memória ou reencontro.

Pegar na palavra
e segui-la
como se fosse um sonho a acenar
um desejo a prolongar-te os gestos.

Soprar sementes nas manhãs
paradas. Exaustas. Doridas.

Convocar a imaginação.

Cair de pé.


Brígida Luz
17.03.16

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Ab.negação


Durante horas não se sentou.
Toda a tarde lhe dançaram nos dedos
palavras incertas
vago tempo
adormecido.
Falou sempre numa voz adocicada.
Sem mencionar jamais
as cadeias que lhe atam
o coração.
Manteve as costas direitas
estáveis
e só na curva da mesa
pousou os olhos no chão.

Brígida Luz
06.01.16