domingo, 17 de abril de 2016

Dissolução

Saber explicar as coisas
que doem nas vozes
da terra.
Lentamente adormecer o vento
entranhar nas raízes
sílabas antigas
e recolher o tumulto das chuvas.
Verter dos olhares palavras
impronunciáveis
porque são insuficientes as palavras
onde dissolver os silêncios.

BL – 17.04.16

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Dissonância

Abrir a janela
e atravessar a solidão da manhã
a linha liquefeita
dos verdes da folhagem.

Mover o coração
com a brisa que conduz
o fio invisível das coisas.

Entre as formas recolhidas
a rocha imprecisa
onde a luz e a realidade se misturam.

Repousam nomes no silêncio
tempo convertido em imagens
perdidas.

Há um céu possível
sonhos a rodarem
sobre eixos dissonantes.

E há a rua

translúcida

a progredir
sob os meus passos de chuva.

E eu
imersa no interior do silêncio

água parada
a deixar-me para trás.

Brígida Luz
03.04.16

domingo, 20 de março de 2016

Se eu chegar tarde à primavera


Se eu chegar tarde à primavera,
mostra-me onde fica a luz que resta
do inverno que dói
nas fendas da pele,


ou do vento
que geme ladainhas inexatas.


Se eu chegar tarde à primavera,
mostra-me onde fica
a chama da manhã no exílio dos pássaros,


ou então o silêncio profundo
da fusão das almas, na mortalidade
do tempo breve em que germina a sede
inútil e imprecisa, que antecede
o verão que há de chegar.


Brígida Luz

quinta-feira, 17 de março de 2016

Desconexão

A luz a entranhar-se
na lentidão da noite
derramada sobre o arvoredo.

Podia o silêncio acordar
e ser um murmúrio brando
uma paz interminável
a sussurrar eternidade.

E o tempo a querer ser
a voz de um tempo vivo
memória ou reencontro.

Pegar na palavra
e segui-la
como se fosse um sonho a acenar
um desejo a prolongar-te os gestos.

Soprar sementes nas manhãs
paradas. Exaustas. Doridas.

Convocar a imaginação.

Cair de pé.


Brígida Luz
17.03.16

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Ab.negação


Durante horas não se sentou.
Toda a tarde lhe dançaram nos dedos
palavras incertas
vago tempo
adormecido.
Falou sempre numa voz adocicada.
Sem mencionar jamais
as cadeias que lhe atam
o coração.
Manteve as costas direitas
estáveis
e só na curva da mesa
pousou os olhos no chão.

Brígida Luz
06.01.16


No interior de um lugar quieto

Carregar a força de um nome antigo
no silêncio do olhar.

Imagens do círculo
inevitável
das metamorfoses dos dias.

Transparências simples
de convicções que são

o reflexo da luz
sobre si mesma.

O início de um lugar
quieto
palavra imóvel entre poentes

a fixarem-se na linha esguia das árvores.

Brígida Luz
05.01.16

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Lua cheia

Apagar a história. Uma narrativa
de ruas vazias a atravessarem o mundo
dias suspensos

espalhados por entre as pedras
da rua.

Encontrar-te à distância de um abraço
e ficarmos a olhar o último horizonte

até perdermos o tempo de vista.

Entranhar no silêncio a claridade
da noite. Lua mansa. Lua cheia.

Adormecer no rumor da luz as escarpas
da memória.

Brígida Luz
25.12.15