quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Decifração


Fazer destas paredes a folha em branco
dedos de árvores a pintarem um tempo nu
uma porta de entrada
um recomeço de vozes
ou de palavras


_sabe-se lá_

Fazer deste momento uma lentidão
a passar-me pelas horas
um céu suspenso na imensidão azulada
uma serena linguagem de mar
longínqua viagem de gaivotas


_ou o manto inocente do silêncio que me rodeia_

Brígida Luz

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Permanecer

A folha branca a palavra clara
em que o chão se refaz

barcos nas pontas dos dedos
com o aparente movimento de existir.

Permanecer nos vultos resguardados
num regaço de chuva

iludir na harmonia das árvores
a solidão dos desertos que vêm de longe.

Reconstruir o gesto na linguagem
dos pássaros

ou partir no voo impossível
onde me abrigo.

Brígida Luz
17.11.15

Raízes

Existem palavras pequeninas
que tu não conheces. Palavras pequenas
sem princípio ou fim

como seiva ou raízes a crescerem no interior dos corpos.
Ou como a eternidade. Palavras como pai mãe filho amor.
A eternidade. Mas tu não

conheces a eternidade. Atravessas o tempo
coberto de nomes transitórios

cercado de silêncios inflamados
onde queimas as palavras. Pequeninas.

Brígida Luz
17.11.15

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Tudo está aí

Reter o tempo na janela
virada a sul. Tudo está aí

na luz recuperada dos velhos outonos
em que o corpo amadurou.

Demorar o olhar sobre as promessas
breves e frágeis

submersas entre o cheiro dos eucaliptos
e o sabor das amoras silvestres.

Atravessar as grandes verdades
que cabiam
nos sussurros dos ventos da infância

a repartir com os pássaros as certezas
que só eles compreendiam.

E em silêncio
no leito de um rio só

intenso e vasto

deixar que as águas todas se refaçam.

Brígida Luz
10.11.15

domingo, 8 de novembro de 2015

Mas há o mar...

Muito além do reflexo. A mergulhar
em águas desnudas de sílabas retocadas
de sussurros quentes.
Queria encontrar-te aí
o olhar fixo no tempo quieto
a dizer o meu nome com a tua voz lavada
e eu suspensa no tempo
a ter a certeza dos teus passos
a caminho de algum lugar.
Convergentes. Os passos. Os teus e os meus.
Até encontrarmos o sol no fundo do mar.

Brígida Luz
08.11.15

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Entre umas e outros

Eternamente grito impossível
teia de vento tecida
de sílabas de pedra

eternamente sombra
memória à saída das horas
criança que parte em silêncio

luta vazia
solo de esquecimento
árvore de luz pendular
entre umas e outros.

Hoje

[ como ontem ]

o céu é uma penumbra líquida

e o tempo a descer em folhas vermelhas
como se fosse um poema de outono

[ talvez o entardecer por dentro de mim. ]

Brígida Luz
05.11.15

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Ao fundo da folhagem


Os olhos
ao fundo da folhagem
a serem poalha luminosa.

A estrada
há muito tempo longa
muito longe lenta.

As vozes
a solidão das vozes
ecos de oposição
nos pensamentos.

O tempo
sempre o tempo
a poder ser traço
ou instante
imagem esparsa do voo de um pássaro.

Brígida Luz
26.10.15