terça-feira, 17 de novembro de 2015

Raízes

Existem palavras pequeninas
que tu não conheces. Palavras pequenas
sem princípio ou fim

como seiva ou raízes a crescerem no interior dos corpos.
Ou como a eternidade. Palavras como pai mãe filho amor.
A eternidade. Mas tu não

conheces a eternidade. Atravessas o tempo
coberto de nomes transitórios

cercado de silêncios inflamados
onde queimas as palavras. Pequeninas.

Brígida Luz
17.11.15

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Tudo está aí

Reter o tempo na janela
virada a sul. Tudo está aí

na luz recuperada dos velhos outonos
em que o corpo amadurou.

Demorar o olhar sobre as promessas
breves e frágeis

submersas entre o cheiro dos eucaliptos
e o sabor das amoras silvestres.

Atravessar as grandes verdades
que cabiam
nos sussurros dos ventos da infância

a repartir com os pássaros as certezas
que só eles compreendiam.

E em silêncio
no leito de um rio só

intenso e vasto

deixar que as águas todas se refaçam.

Brígida Luz
10.11.15

domingo, 8 de novembro de 2015

Mas há o mar...

Muito além do reflexo. A mergulhar
em águas desnudas de sílabas retocadas
de sussurros quentes.
Queria encontrar-te aí
o olhar fixo no tempo quieto
a dizer o meu nome com a tua voz lavada
e eu suspensa no tempo
a ter a certeza dos teus passos
a caminho de algum lugar.
Convergentes. Os passos. Os teus e os meus.
Até encontrarmos o sol no fundo do mar.

Brígida Luz
08.11.15

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Entre umas e outros

Eternamente grito impossível
teia de vento tecida
de sílabas de pedra

eternamente sombra
memória à saída das horas
criança que parte em silêncio

luta vazia
solo de esquecimento
árvore de luz pendular
entre umas e outros.

Hoje

[ como ontem ]

o céu é uma penumbra líquida

e o tempo a descer em folhas vermelhas
como se fosse um poema de outono

[ talvez o entardecer por dentro de mim. ]

Brígida Luz
05.11.15

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Ao fundo da folhagem


Os olhos
ao fundo da folhagem
a serem poalha luminosa.

A estrada
há muito tempo longa
muito longe lenta.

As vozes
a solidão das vozes
ecos de oposição
nos pensamentos.

O tempo
sempre o tempo
a poder ser traço
ou instante
imagem esparsa do voo de um pássaro.

Brígida Luz
26.10.15

domingo, 25 de outubro de 2015

E eu não sei do tempo que passou


Devo ter sido isso. Uma parte de mim
como quem acontece a medo
entre o que se diz e o que se queria fazer.
Escrevo o desassossego dos espaços cheios
como se me fossem um lugar natural
em que as coisas deixam de ser sempre as mesmas
entretantos ou sopros no vazio.
E poder dizer que dos meus olhos
saem caminhos. Construir
pontes com as palavras que faltam.
Hoje choveu
a água atravessou a luz
e eu não sei do tempo que passou.

Brígida Luz
25.10.15

sábado, 17 de outubro de 2015

A anteceder o naufrágio

Deixar que os gestos do sol me poisem sobre o rosto
a desenharem os contornos dos pensamentos.
Desprevenidos
em repouso
como se os dedos entranhados de eternidade
pudessem transpor a lonjura do olhar
ou habituar-se, serenos, à voz do derradeiro sono.
A aceitação do tempo parado. Ou de uma
luz sem nome
a anteceder o naufrágio.

Brígida Luz
17.10.15