quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Por dentro do encantamento das memórias

A sombra presa à solidão da árvore
tão vazia
tão despida de folhas.

A terra adormecida a entrar-me nos ossos.

Mas as palavras voam
vibram nos dedos quando o silêncio me dói.

E um dia hei de dizer-te da luz definitiva
que habita o coração do poema.
O lugar exato
onde o tempo ajusta brisas e searas
e o poente adormece
sob a tranquila respiração dos silêncios.

Hei de dizer-te das ruas
que atravessam horas serenas
por dentro do encantamento das memórias.

Brígida Luz
01.10.15

sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Sob luas e silêncio

Para te explicares as palavras inquietas
voltas a olhar o horizonte
e a viver o silêncio que o outono descobre.

Do tempo verás nascer
lentamente o infinito

e é provável que te abeires de um refúgio
onde a lágrima atravesse a inocência
da primeira luz da manhã

e se deixe morrer sem nome.

Brígida Luz
25.09.15

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

"Delete"




O tempo desgastado
entre clausuras e penumbras.

As paredes grafitadas de nomes e delírios
a abrirem janelas
fechadas para dentro.

Gavetas repletas de grandes planos
soletrando gestos distraídos.

Mas depois, o vento.

O que procura o vento
dentro de um retângulo branco?

Brígida Luz
18.09.15

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Ausência

Escuta. São as rolas a estenderem um lamento rouco

sob as nuvens da tarde que decai.



A rua a ser o silêncio. E um olhar

a verter memórias

ou gestos sós e repetidos que perderam definição.



O teu nome a ser o eco

das aves e do vento



uma canção que ressoa num espaço indefinível



a nitidez dos instantes

diluídos no vermelho do horizonte.



O tempo a ser o silêncio.



E tudo o que sobra evoca a densidade das palavras

o tamanho espesso das sombras

subterrânea ausência.



Brígida Luz

10.09.15

sábado, 15 de agosto de 2015

Poema de um sábado à tarde


Agosto tem sido uma luz

toldada. Gosto de tons de cinza

sempre que me enchem os olhos de mar.

Mas um cinza negro escorre por dedos de terra

e às vezes cola-se a uma ave de sombra

a estender pelas coisas fumaças de silêncio

e de dias tristes.

E as mãos secas e adiadas das mulheres gastas

são a fala do verso

a memória quebrada dos lábios vencidos.



BL

15.08.15

terça-feira, 14 de julho de 2015

Poema de um tempo perfeito


Conseguir ainda vislumbrar nas margens

invisíveis pontos de luz. Percetíveis

no lado do silêncio. Ou presos

a um longínquo horizonte em fuga,

poente transitório a afundar-se na memória.



Agora que a água jorra das fontes

e que haverá rosas em janeiro

revivo praias sem fim,

a insistir num azul intemporal perto do rosto.



Longos anos feitos de sépia e palavras antigas

estremecem, de súbito,

à espera do tempo em que a palavra recomeça.



Brígida Luz

14.07.15

sexta-feira, 26 de junho de 2015

A luz que ainda existe


O que aos poucos vais deixando cair

sob o peso dos meios-termos

dos meios-tons

das meias-horas



num fio entrelaçado de um silêncio maleável

e o tempo a toda a volta



onde resiste

uma serena coreografia de formas brancas.



Um mapa

a prender a luz que ainda existe

nos teus dias dispersos.



Um abrigo de vultos

a transportarem a eternidade



viagem invisível aos lugares mais profundos

suspensos de um tudo ou de um nada

que principiam no eco das palavras.



As palavras. Voz e sede das mãos

quando a vida é um pretérito

a preto e branco.



Brígida Luz

25.06.15