quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Ausência

Escuta. São as rolas a estenderem um lamento rouco

sob as nuvens da tarde que decai.



A rua a ser o silêncio. E um olhar

a verter memórias

ou gestos sós e repetidos que perderam definição.



O teu nome a ser o eco

das aves e do vento



uma canção que ressoa num espaço indefinível



a nitidez dos instantes

diluídos no vermelho do horizonte.



O tempo a ser o silêncio.



E tudo o que sobra evoca a densidade das palavras

o tamanho espesso das sombras

subterrânea ausência.



Brígida Luz

10.09.15

sábado, 15 de agosto de 2015

Poema de um sábado à tarde


Agosto tem sido uma luz

toldada. Gosto de tons de cinza

sempre que me enchem os olhos de mar.

Mas um cinza negro escorre por dedos de terra

e às vezes cola-se a uma ave de sombra

a estender pelas coisas fumaças de silêncio

e de dias tristes.

E as mãos secas e adiadas das mulheres gastas

são a fala do verso

a memória quebrada dos lábios vencidos.



Brígida Luz

15.08.15

terça-feira, 14 de julho de 2015

Poema de um tempo perfeito


Conseguir ainda vislumbrar nas margens

invisíveis pontos de luz. Percetíveis

no lado do silêncio. Ou presos

a um longínquo horizonte em fuga,

poente transitório a afundar-se na memória.



Agora que a água jorra das fontes

e que haverá rosas em janeiro

revivo praias sem fim,

a insistir num azul intemporal perto do rosto.



Longos anos feitos de sépia e palavras antigas

estremecem, de súbito,

à espera do tempo.



Brígida Luz

14.07.15

sexta-feira, 26 de junho de 2015

A luz que ainda existe


O que aos poucos vais deixando cair

sob o peso dos meios-termos

dos meios-tons

das meias-horas



num fio entrelaçado de um silêncio maleável

e o tempo a toda a volta



onde resiste

uma serena coreografia de formas brancas.



Um mapa

a prender a luz que ainda existe

nos teus dias dispersos.



Um abrigo de vultos

a transportarem a eternidade



viagem invisível aos lugares mais profundos

suspensos de um tudo ou de um nada

que principiam no eco das palavras.



As palavras. Voz e sede das mãos

quando a vida é um pretérito

a preto e branco.



Brígida Luz

25.06.15




sábado, 13 de junho de 2015

Nomes cercados de águas e de tempo


Explicar lentamente

o longo caminho de um pequeno corpo maior que o mundo

onde a vida é princípio

e o poema um sismo a romper as veias.

Sonhar a inocência de abril

em nomes cercados de águas e de tempo

e neles celebrar o amor e o sol que se agiganta.

Fechar os olhos e atravessar a luz profunda

a abrir-nos o peito

para que se cumpram todas as certezas.



Brígida Luz

13.06.15

terça-feira, 19 de maio de 2015

Poema de um tempo agitado


Traçar o ângulo mais perfeito da flor

e colher a luz inteira que nela crepita.



Projetar na tua ausência o sabor

das palavras límpidas



e ouvir a tua voz

como se fosse um corpo de névoa

ou o silêncio da tarde que finda.



Talvez a lonjura do olhar

se aquiete nas folhas de vento

em que o tempo se agita.



Brígida Luz

domingo, 15 de março de 2015

Poema de domingo à tarde





Nomeio os caminhos
debruçados num cais de abril
quando na pele havia
rumores de manhãs primeiras
ou da luz a melodia inteira que em mim guardava.
E eu chamava-te instante
sonho
rosto
e a tua voz era o tempo verdadeiro a ensinar-me
o sol de maio a descer as ruas.
E num fio de versos soltos
ou na memória de uma página lenta
nomeio os lugares do silêncio
onde
sobre as mãos
baixam palavras nuas.




Brígida Luz