terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Água e silêncio


 
 
Sem significado. Uma folha de papel branca

ou cinzenta

uma sombra

e um labirinto de traços vazios. Como o poema.

Como este poema. Vazio.

Tudo trémulo. As mãos. Os olhos. A voz.

A água a atravessar o silêncio.

Depois da vidraça

a rua antiga é uma

memória cheia. Luz.

E o poema

vazio.

Disse-te sim filha vai

e sê feliz.

E tu foste.



Brígida Luz

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Declino me


O lápis a repousar

na distância.

Na brancura do lugar

ou na limpidez da voz.



Há palavras que se movem

nas paredes

e guardam os dias em que acreditei

no perfil eterno do mar.



Sei que não devo pensar

nas raízes da árvore antiga



ou no silêncio

do lume inteiro no inverno.



Mantenho-me à tona de mim



pronta para a floração

dos barcos que partiram



entregue à claridade mansa

que rodeia as águas que correm.



Brígida Luz

sábado, 31 de janeiro de 2015

Ao fundo, uma parede em branco


 
 
Penteavas-me a trança

e metade de mim a ser

a parede em branco

ao fundo dos meus passos vagarosos.



Caminhava para trás

os braços despidos de folhas



estendidos para dentro

dos teus olhos a dizerem vai



que é frágil

e débil

a luz que sobra.



E eu a atravessar a rua antiga

e eu a ser

correndo

a outra metade de mim.



Brígida Luz

31.01.15

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Em letra pequena


Aprender a duração da tarde

sem que no vento

se suspendam as palavras.



Reconstruir o espelho

e

no alvoroço da espera



entrar por dentro do infinito

e recolher no tempo

as rosas prometidas.



As rosas prometidas.



Desfolhadas em sílabas

divididas em hemisférios

de neve e lava.



Uma história a nascer.



Ainda sem um ramo de mar

ou uma rua respirável.



Em letra pequena

mas com cheiros de planície.



E os rostos facetados

do silêncio e da nostalgia.



A escutar as vozes do indecifrável

a cerrar lentamente a luz

que se verte dos olhos



como um rio que não correu.



Brígida Luz

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Partidas


E hoje há um perfil aberto

ao vento contraditório

de novembro. As partidas

fundem-se no meu corpo

como árvores despidas a transitarem

entre o sangue e as memórias.

E doem-me os olhos

afogados em sílabas vazias.



E esta chuva miudinha

a agudizar o silêncio

preso à líquida brevidade das palavras

que passam por mim num ilusório gesto de água.



Brígida Luz

domingo, 2 de novembro de 2014

Poema em aberto


Comigo vêm palavras lentas

demoradas

onde o tempo quase para. Linhas claras

a unirem inexistências. A transporem

um espaço vazio

onde o rio se perdeu.



Efemérides

digo-me eu. Na esperança

de que os olhos se fechem num verso brando

e rasguem apenas o clarão da luz

na entrada do horizonte.



Por onde tu sempre passas. Vagarosamente.



Brígida Luz

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Poema em branco


Espero-te no limite

da brevidade. Porque “em breve”

é um espaço vago e os olhos

resvalam para o tempo húmido

que se projeta da raiz das nuvens.



Breve foi a vertigem que atravessou

o mistério da luz.

Saboreei a profundidade do vento

a cadência da manhã por dentro das árvores



[ os frutos ainda por amadurar ]



Tombaram as folhas

arrastadas pelas águas que correram

ao invés. Esboços de todas as ilusões.



Traços rasurados na penumbra

da pedra. A deslizar rente à parede

em branco

à procura de uma porta

que a viesse buscar.



Brígida Luz

07.10.14