terça-feira, 12 de agosto de 2014

Estranhamente doce




 
 
 
É aqui
que os dias se cruzam


espartilhados

como a
sede da gaivota onde ironicamente


agoniza
o verão.


São
longas as horas e o silêncio alonga-se


nas ruas
que dormem


na
inocência de sílabas proibidas.


Sei de
um equilíbrio impreciso


ou da
sombra errante que me amarra as memórias


à voz
que me rodeia o nome.


Tão
breve como a lucidez da folha


tecida
na sede das mãos


cresce
nos meus olhos


um
abrigo de água


estranhamente
doce.


Brígida Luz

sábado, 9 de agosto de 2014

Um fim de semana luminoso

Foto de Rita Luz

Pegadas





 
 
e aqui voltei

mergulhada numa luz de longe


entre mim

e o que de mim deixei


réstia transparente

de um tempo de estio


âmago da vida

entre o vento e o rio


silêncio e searas maduras

um quase sossego do verso


labirinto de cores

no ventre da terra


viagem metamórfica

à mais funda raiz do poema.



Brígida Luz

quinta-feira, 31 de julho de 2014

por aí...




A árvore
ou o silêncio de um ninho no interior de um ninho
a um grito da queda.


O tronco
mirrado. Como quem
se deixou tombar por dentro. Uma ave
abrigada entre folhas e ramos
a debicar o pensamento.


Os olhos
a seguirem o rumo
da seiva a espalhar-se
pelo tempo. À procura
da primavera
no fundo do mundo.


Brígida Luz

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Um lugar acima de nós


Espero ainda por ti

à beira de uma raiz do olhar. Como quem



envolve a alma na memória e se agarra

ao tempo quieto

que vem de dentro. Falo-te



da voz que os pássaros abrigam nas falésias

ou dos cabelos encrespados do mar. E o silêncio

a crescer acima de nós



a devolver-nos o dialeto do vento

voz da tua e da minha voz.



E o tempo acima do vento

mil anos acima de nós.



E os teus passos

os teus passos curvados



a desenharem na sombra a direção da luz.



Luz em fuga

no desencontro dos tempos.



Lugar

das coisas indizíveis



tão perto da voz.



Brígida Luz

terça-feira, 15 de julho de 2014

Um nome que te dói


Foto de Michael Bilotta
 
 
Um nome que te dói. Que te ocupa

todos os espaços do corpo e que talvez



só exista dentro de ti. Cheio de aves

e dos incêndios do entardecer.



Talvez destinado a morrer.

Como tu morres ao despertar da manhã



e o silêncio é refúgio de barcos

e de tempestades.



Um nome que te dói. Que não te sabe

a inocência das estrelas. Onde o tempo



cresce e a memória te molda a alma

na geografia do corpo. O teu corpo



exausto. A luz inerte de um rosto vazio.



Brígida Luz