terça-feira, 8 de julho de 2014

Convergências


Foto de Elsa Mota Gomes - 1000imagens.com
 
 
Sei que é tangível

a cumplicidade da palavra.

Clamo-a

agora mais do que nunca

para que nada mais se cumpra entre mim

e esta solidão cinza-violácea

que desce pelo anoitecer e respira

por dentro das paredes.

A saudade, tu sabes.

A casa embebida de longes.

A lentidão dos dias que passam.

A luz das pequenas coisas

simples e inadiáveis

suspensas nas intermitências da voz.

Espaços em branco

em redor do meu corpo. A fragmentarem

o movimento de um tempo que vem de fora

e demora a chegar.
 

Brígida Luz

sexta-feira, 4 de julho de 2014

Num fio de palavras [des]convocadas

Foto de Irene Fittipaldi

 
Levamos o tempo fechado no olhar

como se gritássemos sombras silenciosas

paradas no esquecimento.

Através dos corpos emudecidos

passam os dias turvos de ausências

e de solidão.



E ao redor da casa envelhece

uma tranquilidade baça

por onde se afundam os gestos vagos

a sucumbirem na fuga.



Convoco o vocabulário

da ressurreição

a plena vastidão do amor

para dentro das imagens



mas sei apenas de um quase nada

sempre que viro a página

e o rio reflui e me engole



[ ou me adia ]



e a linguagem da pele quase não passa.



Brígida Luz

13.06.14



 

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Escrevo pontes dentro de mim


Foto de Anja Buehrer
 
 
Debruço-me sobre o rio e escrevo

pontes dentro de mim.

Penso em nós

límpidas palavras de água a tocarem-nos os rostos

caminhos invisíveis

a transporem as margens.



Na ponta dos meus dedos, o rio

é voo impossível onde me abrigo.

Viagem inconfessa do coração dos pássaros.



Deixo-me tocar pelo silêncio das horas

e tudo chega e existe junto de mim.

Repouso os olhos cansados

nos barcos demorados na espiral do poema.

Canções antigas. Fascínios que dormitam.



Desarrumo as memórias pelo céu.



É necessário partir

e anunciar as sementes da manhã.



Brígida Luz

06.06.14

domingo, 15 de junho de 2014

No reverso do reflexo




Retida no reverso do reflexo
segue os retalhos do tempo
subindo os olhares das estradas


escorrega na sombra do centro
arruma portas e abraços
enterra relógios
retratos


subtrai a crispação do silêncio
ilude a mutilação da noite
amordaça a culpa desfocada


engole a mudez do pensamento
desata os nós da palavra
voa no horizonte do vento


suspende-se
parágrafo
nos ramos das estrelas
sente os luares da semente
e renasce


nasce madrugada
cresce redenção


ah! as fotos!

as fotos depois dirão.

Brígida Luz

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Em que estrela repousará teu rosto?





 
 
Em que estrela repousará teu rosto?

Em que lugar dança a primavera?

Eu sou as flores que murcham

sobre a mesa, um nome quieto

à tua espera.

Procuro a tua voz no rodopio das árvores

e do vento caem nomes

e nuvens da infância. Preciso das tuas mãos puras

para descer a chuva

ou mover as pedras.



Convoco o esquecimento

para escrever os dias

em sílabas que resistem a raízes

presas à maceração da pele.



Talvez seja este o tempo de partir

ou de me dividir

em silêncios [ávidos de palavras].



Em que estrela repousará teu rosto?



Brígida Luz

sábado, 17 de maio de 2014

Degraus do tempo




Diante de nós
degraus intermináveis de um tempo
a que regressamos.
Com as mãos iludimos
a solidão das palavras que vêm de longe
pintamo-las de compromissos brancos
adivinhamos memórias e desertos
dentro do silêncio que se apodera de nós.
Perseguimos flores
na queimadura dos cardos.
Temos agora a bondade nos olhos
e ao fundo da verdade
penduramos uma tela:
_a fuga dos girassóis.
Procuramos abrigo dentro
do fogo de lágrimas irreprimíveis
esperando que delas
possamos sair inocentes
ou redimidos.
BL

sábado, 10 de maio de 2014

No meu olhar de chuva




 
 
 
Na passagem do poema,

junto-me

às janelas abertas,

perto da harmonia das árvores

que, lá fora, olham o bulício dos pássaros

ou a claridade do céu.



Escrevo apenas as palavras da tarde,

lentas, quase paradas,

como o vento.



Por dentro da simplicidade

do silêncio,

penso em ti

como luz em fuga

e sei o teu rosto refletido

em espelhos

que nunca entenderei.



Porque, soube-o sempre,

inventei-te no meu olhar de chuva,

enquanto procurava o nascer do sol.



Brígida Luz