sábado, 17 de maio de 2014

Degraus do tempo




Diante de nós
degraus intermináveis de um tempo
a que regressamos.
Com as mãos iludimos
a solidão das palavras que vêm de longe
pintamo-las de compromissos brancos
adivinhamos memórias e desertos
dentro do silêncio que se apodera de nós.
Perseguimos flores
na queimadura dos cardos.
Temos agora a bondade nos olhos
e ao fundo da verdade
penduramos uma tela:
_a fuga dos girassóis.
Procuramos abrigo dentro
do fogo de lágrimas irreprimíveis
esperando que delas
possamos sair inocentes
ou redimidos.
BL

sábado, 10 de maio de 2014

No meu olhar de chuva




 
 
 
Na passagem do poema,

junto-me

às janelas abertas,

perto da harmonia das árvores

que, lá fora, olham o bulício dos pássaros

ou a claridade do céu.



Escrevo apenas as palavras da tarde,

lentas, quase paradas,

como o vento.



Por dentro da simplicidade

do silêncio,

penso em ti

como luz em fuga

e sei o teu rosto refletido

em espelhos

que nunca entenderei.



Porque, soube-o sempre,

inventei-te no meu olhar de chuva,

enquanto procurava o nascer do sol.



Brígida Luz

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Breve será o sal


Foto de Mariusz Warsinski


Tu ainda não o sabes, mas o teu olhar

às vezes

tem a vastidão do mar.



Vês ao longe o traço

onde o silêncio nasce



uma palavra azul

a flutuar na curva do horizonte



ou uma flor a abrir

a entrelaçar-se nos dias e a ser

primavera, em todas as estações.



Se seguires no tempo

a sintaxe da terra prometida

breve será o sal que atravessa a pele da resignação.


Leve será o vento

no coração da ilha.



Brígida luz

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Reencontro


Fala-me agora de todas as vezes

em que habitávamos o pôr do sol

e só nós percebíamos o incêndio que ateávamos

para lá do véu dos sonhos.

Talvez demandássemos a luz de abril

ou as promessas de um sentir

em que os corpos amaduravam.

Olho-as daqui, breves e frágeis, as promessas,

imersas no nevoeiro das grandes distâncias.

No fundo, penso-as retidas num tempo

cuja morada se mudou.

Somente os ecos se mantêm

e os silêncios submersos nos rios que correram.

E as memórias

a fluirem nas veias de um poema

para que o tempo se reencontre,

habitável,

para além da eternidade.



Brígida Luz

14.04.14

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Entre o sono e o sonho




Suspensa do teto, a noite em movimento
a mapear memórias
pelas idades dentro.

A retomar a construção
de fraturadas improbabilidades
alimentadas pelo clarão verde
de exígua chama
mar noturno
a deslizar
numa espiral de estrelas.

A emergir das águas infindáveis
em redemoinhos de rostos e incêndios

a galgar margens extasiadas
em minúsculos estilhaços do tempo.

A iluminar o sonho
na vertigem dos nomes gravados
na claridade da pedra.

E os meus olhos
longe
na lucidez do silêncio
sementes e uni_verso
no interior da luz.



Brígida Luz





quarta-feira, 9 de abril de 2014

Regressámos ao silêncio






Regressámos ao fundo do silêncio. Não aquele silêncio

que tem por fundo

o ventre do arco-íris ou o verdejar dos pássaros.



Falo de um silêncio escuro, como

o luto

ou a dor. Ou uma flor

silenciada em tons de melancolia.



Os olhares não se tocam. Movem-se, às vezes,

como sobras de reflexos prateados

de um mesmo mar de solidão.

Dissolvem no ar os sonhos congelados do mundo.



Rostos amassados.



Ar dentro das mãos,

apenas.



Brígida Luz

terça-feira, 8 de abril de 2014

O mundo da lua

Foto de KT Allen

Caminho por entre luas lentas
como se o chão antigo
não me reconhecesse o nome.

Escavo memórias vadias
entre os pavios das insónias

semeio grãos de areia
nos interstícios do vento.

Sou uma aragem de criança
entre o desespero da chuva. E a seara
uma hora impossível

a rejeitar o tempo.

Sou a voz da pedra nua
quando atravesso as palavras

a névoa das reminiscências

a cegar de sombras gastas
a luz tua

distante guia

que apaixonadamente a noite amplia.




Brígida Luz