quarta-feira, 9 de abril de 2014

Regressámos ao silêncio






Regressámos ao fundo do silêncio. Não aquele silêncio

que tem por fundo

o ventre do arco-íris ou o verdejar dos pássaros.



Falo de um silêncio escuro, como

o luto

ou a dor. Ou uma flor

silenciada em tons de melancolia.



Os olhares não se tocam. Movem-se, às vezes,

como sobras de reflexos prateados

de um mesmo mar de solidão.

Dissolvem no ar os sonhos congelados do mundo.



Rostos amassados.



Ar dentro das mãos,

apenas.



Brígida Luz

terça-feira, 8 de abril de 2014

O mundo da lua

Foto de KT Allen

Caminho por entre luas lentas
como se o chão antigo
não me reconhecesse o nome.

Escavo memórias vadias
entre os pavios das insónias

semeio grãos de areia
nos interstícios do vento.

Sou uma aragem de criança
entre o desespero da chuva. E a seara
uma hora impossível

a rejeitar o tempo.

Sou a voz da pedra nua
quando atravesso as palavras

a névoa das reminiscências

a cegar de sombras gastas
a luz tua

distante guia

que apaixonadamente a noite amplia.




Brígida Luz

domingo, 6 de abril de 2014

Meto-me para dentro, e fecho a janela - Alberto Caeiro



"Meto-me para dentro, e fecho a janela.
Trazem o candeeiro e dão as boas noites,
E a minha voz contente dá as boas noites.
Oxalá a minha vida seja sempre isto:
O dia cheio de sol, ou suave de chuva,
Ou tempestuoso como se acabasse o Mundo,
A tarde suave e os ranchos que passam
Fitados com interesse da janela,
O último olhar amigo dado ao sossego das árvores,
E depois, fechada a janela, o candeeiro aceso,
Sem ler nada, nem pensar em nada, nem dormir,
Sentir a vida correr por mim como um rio por seu leito.
E lá fora um grande silêncio como um deus que dorme."

sábado, 5 de abril de 2014

Como se nada mais se concedesse

Foto de Martin Marcisovsky

Sentar-se na extremidade do sofá,

olhando os olhares, como se

a nada pertencesse,

como se nada mais se concedesse

que o girar dos gestos,

sons caídos dos dias sós.



Ficar calada como a noite,

inventar barcos nas pontas dos dedos,

por detrás do imaginário das esperas.



Depois, sair do corpo,

transformar a noite em tempo,

ter trajetórias e cais,

rente às palavras eternas,

às árvores,

ao vento.



Brígida Luz

segunda-feira, 31 de março de 2014

Súbitas madrugadas




Foto de Denis Lamblin
 
 
 
E talvez hoje me possas dizer

da passagem de uma luz generosa

em que te aceitas vivo e te confundes

com as árvores da manhã.

Caíram sobre o silêncio do rio

súbitas madrugadas de primavera.

E tudo muda, o vento, o mar,

as terras alagadas. És tu a memória

do mundo, a pele das casas caiadas.

És tu o tempo do teu corpo, a raíz da tua

estrada.

És tu a folha branca e a palavra clara

em que refazes o chão onde tudo se aproxima

dos fascínios adiados dos teus olhos.

 
Brígida Luz