sexta-feira, 4 de abril de 2014
segunda-feira, 31 de março de 2014
Súbitas madrugadas
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Foto de Denis Lamblin
|
E talvez
hoje me possas dizer
da
passagem de uma luz generosa
em
que te aceitas vivo e te confundes
com
as árvores da manhã.
Caíram
sobre o silêncio do rio
súbitas
madrugadas de primavera.
E
tudo muda, o vento, o mar,
as
terras alagadas. És tu a memória
do
mundo, a pele das casas caiadas.
És
tu o tempo do teu corpo, a raíz da tua
estrada.
És
tu a folha branca e a palavra clara
em que
refazes o chão onde tudo se aproxima
dos
fascínios adiados dos teus olhos.
Brígida Luz
quinta-feira, 27 de março de 2014
domingo, 16 de março de 2014
Transcendência
O céu como temporal
sobre o atrito da rua lenta
enquanto escondo o frio
nas mãos
e aqueço as aves
nas palavras.
sobre o atrito da rua lenta
enquanto escondo o frio
nas mãos
e aqueço as aves
nas palavras.
Todos os dias o sol
a nascer
e eu, ao canto da sombra,
a nascer
e eu, ao canto da sombra,
[viagem adiada]
mudez estranha retraída na
obscuridade
dos olhos.
dos olhos.
Talvez me aguarde o tempo
de transcender numa metáfora
a trajetória
de um corpo quebrado, ofegante
depurado na dimensão triangular
da claridade
de transcender numa metáfora
a trajetória
de um corpo quebrado, ofegante
depurado na dimensão triangular
da claridade
e aceitar como um incêndio as águas
que caem
por dentro do silêncio espesso
de vozes mutiladas.
por dentro do silêncio espesso
de vozes mutiladas.
Hei de, quem sabe, regressar à
memória de Deus
lugar e tempo
que me dói, e que me dói, na chama
que se apaga na sala
e, secretamente insubmissa, me reclama
árvore, pássaro, alma, apenas
lugar e tempo
que me dói, e que me dói, na chama
que se apaga na sala
e, secretamente insubmissa, me reclama
árvore, pássaro, alma, apenas
seja na ilusão de urgentes nuvens
incandescentes
ou na espera incerta da projeção da luz
como imagem da casa.
ou na espera incerta da projeção da luz
como imagem da casa.
Brígida Luz
domingo, 2 de março de 2014
A silente concretude da pedra
a incerteza de um traço
a invisibilidade da voz.
Como um percurso que se substitui
num intervalo mais densoda mudança. O aparente
movimento de existir.
Gostava de entender
a silente concretude da pedranas raízes da noite.
Nem que fosse apenas através
de um filamento de pássaros
gelo a diluir-se no tempo
ou uma chama débil
a iluminar-me os olhos vastos de sede
da primeira água da manhã.
Brígida Luz
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
A fenda
Pergunto-me se essa tua
aparência de longe será
somente distânciaou sobretudo ausência
[ por detrás dos olhos ]
no interior de ti.
Esvaziámos as palavras dos
significados
que nos resgatariam da fendano fundo do mar.
Já não temos ninhos
nem barcos de papel, nem pedaços
do tempo
dentro das palavras.
Habituámo-nos a não nomear
os incêndiose tampouco sabemos se existimos
dentro dos nomes que pronunciamos
para que possamos ficar.
Brígida Luz
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
Por dentro da espessura da chuva
Nunca sei se é sobretudo o medo
ou o choro da noite
aquilo que sobressalta
os fiapos de luz por onde
indecisa
se vai movendo a madrugada.
Por dentro da espessura
da chuva
a rua
é um tempo de cicatrizes
renúncias humedecidas no chão
de vidas imaginárias
máscaras
mandatárias de histórias
que não são as suas.
Ajusto o corpo aos contornos das palavras. Abrigam-me
algures
nos vidros da janela
e acrescentam ao silêncio
que me sobra
o sonho
[ou desengano
das molduras de afetos
[e de ausências
que me cabem dentro dos dias.
Brígida Luz
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