domingo, 16 de março de 2014

Transcendência




O céu como temporal
sobre o atrito da rua lenta
enquanto escondo o frio
nas mãos
e aqueço as aves
nas palavras.

Todos os dias o sol
a nascer
e eu, ao canto da sombra,

[viagem adiada]

mudez estranha retraída na obscuridade
dos olhos.

Talvez me aguarde o tempo
de transcender numa metáfora
a trajetória
de um corpo quebrado, ofegante
depurado na dimensão triangular
da claridade

e aceitar como um incêndio as águas que caem
por dentro do silêncio espesso
de vozes mutiladas.

Hei de, quem sabe, regressar à memória de Deus
lugar e tempo
que me dói, e que me dói, na chama
que se apaga na sala
e, secretamente insubmissa, me reclama
árvore, pássaro, alma, apenas

seja na ilusão de urgentes nuvens incandescentes
ou na espera incerta da projeção da luz
como imagem da casa.

Brígida Luz

domingo, 2 de março de 2014

A silente concretude da pedra


Um fio suspenso
a incerteza de um traço
a invisibilidade da voz.

Como um percurso que se substitui
num intervalo mais denso
da mudança. O aparente
movimento de existir.

Gostava de entender
a silente concretude da pedra
nas raízes da noite.
Nem que fosse apenas através
de um filamento de pássaros
gelo a diluir-se no tempo
ou uma chama débil
a iluminar-me os olhos vastos de sede
da primeira água da manhã.



Brígida Luz

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

A fenda




Pergunto-me se essa tua
aparência de longe será
somente distância
ou sobretudo ausência

[ por detrás dos olhos ]

no interior de ti.
Esvaziámos as palavras dos significados
que nos resgatariam da fenda
no fundo do mar.
Já não temos ninhos
nem barcos de papel, nem pedaços
do tempo
dentro das palavras.

Habituámo-nos a não nomear
os incêndios
e tampouco sabemos se existimos
dentro dos nomes que pronunciamos
para que possamos ficar.


Brígida Luz

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Por dentro da espessura da chuva





Nunca sei se é sobretudo o medo
ou o choro da noite
aquilo que sobressalta
os fiapos de luz por onde
indecisa
se vai movendo a madrugada.

Por dentro da espessura
da chuva
a rua
é um tempo de cicatrizes
renúncias humedecidas no chão
de vidas imaginárias
máscaras
mandatárias de histórias
que não são as suas.

Ajusto o corpo aos contornos das palavras. Abrigam-me
algures
nos vidros da janela
e acrescentam ao silêncio
que me sobra
o sonho
[ou desengano
das molduras de afetos
[e de ausências
que me cabem dentro dos dias.

Brígida Luz


terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A harmonia das sombras



Caminho por entre palavras
feitas de pormenores
pontas soltas de uma espécie
de narrativa desconjuntada
a derramar-se no ar frio
e húmido da noite.

A memória é um céu
a escurecer.
Isolada no nevoeiro das recordações
move-se
e retrocede
uma luz trémula e minúscula
concebida como semente
de esperança
bálsamo expectante
no meio da escuridão.

Releio o poema e sinto-lhe
a pele desabitada
como uma casa abandonada
no ocaso do tempo.

Não há espaços para o verbo. Os dedos
despenteiam sílabas arranhadas
pelo vento
relembram esquecimentos iludidos
de eternidade.

Como se a vida fosse
um fogo lento
por onde sobe docilmente
a harmonia das sombras.

Brígida Luz

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Contracurva


Foto de Stanislav Hricko


Poderei encontrar-te
no silêncio líquido que pelo crepúsculo
há de chegar.

Ou então
hei de procurar-te

[ refúgio, talvez ]

num fragmento de mim

ou

numa inflexão mais grave da voz. Porque
hoje
perco-me de ti no limbo
da palavra

no pulsar negro do horizonte
a suster
denso
o incontido
uivo da lágrima.

Brígida Luz

domingo, 29 de dezembro de 2013

A filigrana dos sonhos


Foto de Vuk Adzic

Penso em ti
à distância da voz
cíclica construção de azuis
aroma perfeito
a inventar promessas
inocentemente sufocadas
por dentro das veias.
Atravesso
a misteriosa filigrana
dos sonhos e apercebo-me
da luz a demandar
infinitos fugidios.
Dir-te-ei dos pássaros indomáveis
moldados nas lembranças.
Escrevo no olhar
ausências e regressos
e, em silêncio, retomo
o invisível gesto de amadurar o tempo
que me nasce dos dedos.

Brígida Luz