quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

A fenda




Pergunto-me se essa tua
aparência de longe será
somente distância
ou sobretudo ausência

[ por detrás dos olhos ]

no interior de ti.
Esvaziámos as palavras dos significados
que nos resgatariam da fenda
no fundo do mar.
Já não temos ninhos
nem barcos de papel, nem pedaços
do tempo
dentro das palavras.

Habituámo-nos a não nomear
os incêndios
e tampouco sabemos se existimos
dentro dos nomes que pronunciamos
para que possamos ficar.


Brígida Luz

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Por dentro da espessura da chuva





Nunca sei se é sobretudo o medo
ou o choro da noite
aquilo que sobressalta
os fiapos de luz por onde
indecisa
se vai movendo a madrugada.

Por dentro da espessura
da chuva
a rua
é um tempo de cicatrizes
renúncias humedecidas no chão
de vidas imaginárias
máscaras
mandatárias de histórias
que não são as suas.

Ajusto o corpo aos contornos das palavras. Abrigam-me
algures
nos vidros da janela
e acrescentam ao silêncio
que me sobra
o sonho
[ou desengano
das molduras de afetos
[e de ausências
que me cabem dentro dos dias.

Brígida Luz


terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A harmonia das sombras



Caminho por entre palavras
feitas de pormenores
pontas soltas de uma espécie
de narrativa desconjuntada
a derramar-se no ar frio
e húmido da noite.

A memória é um céu
a escurecer.
Isolada no nevoeiro das recordações
move-se
e retrocede
uma luz trémula e minúscula
concebida como semente
de esperança
bálsamo expectante
no meio da escuridão.

Releio o poema e sinto-lhe
a pele desabitada
como uma casa abandonada
no ocaso do tempo.

Não há espaços para o verbo. Os dedos
despenteiam sílabas arranhadas
pelo vento
relembram esquecimentos iludidos
de eternidade.

Como se a vida fosse
um fogo lento
por onde sobe docilmente
a harmonia das sombras.

Brígida Luz

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Contracurva


Foto de Stanislav Hricko


Poderei encontrar-te
no silêncio líquido que pelo crepúsculo
há de chegar.

Ou então
hei de procurar-te

[ refúgio, talvez ]

num fragmento de mim

ou

numa inflexão mais grave da voz. Porque
hoje
perco-me de ti no limbo
da palavra

no pulsar negro do horizonte
a suster
denso
o incontido
uivo da lágrima.

Brígida Luz

domingo, 29 de dezembro de 2013

A filigrana dos sonhos


Foto de Vuk Adzic

Penso em ti
à distância da voz
cíclica construção de azuis
aroma perfeito
a inventar promessas
inocentemente sufocadas
por dentro das veias.
Atravesso
a misteriosa filigrana
dos sonhos e apercebo-me
da luz a demandar
infinitos fugidios.
Dir-te-ei dos pássaros indomáveis
moldados nas lembranças.
Escrevo no olhar
ausências e regressos
e, em silêncio, retomo
o invisível gesto de amadurar o tempo
que me nasce dos dedos.

Brígida Luz

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Na lucidez dos ciclos


Imagem Google


Podemos romper paredes
trazer para dentro de casa
um rosto pele de musgo
sob a folhagem de um tempo ambíguo.

Esfregamos as pálpebras
a diluir nas nuvens
o que, na lucidez dos ciclos, poderia ter sido.

Não sei se nas paredes
se desdobram os ecos
ou ponteiros de relógios invisíveis.

As árvores dançam ao fundo da noite
e nem o doce brilho de dezembro
confunde a solidão que as habita.

Brígida Luz

domingo, 8 de dezembro de 2013

... e a palavra nasce


Foto de Marián Uhrín


Antever a luz
na arquitetura dos dias.

Despir as sombras, o vácuo
que adormece as veias

para atravessar o pólen extasiado
da manhã.

Ousar na pele
o toque dos pássaros

um bater de asas

a encostar o tempo
à serena cumplicidade do silêncio.

Consentir o corpo de luz
onde
leve
a palavra nasce

como seara de seda
na voz _talvez_ embaciada do olhar.

Brígida Luz