sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Por dentro da espessura da chuva





Nunca sei se é sobretudo o medo
ou o choro da noite
aquilo que sobressalta
os fiapos de luz por onde
indecisa
se vai movendo a madrugada.

Por dentro da espessura
da chuva
a rua
é um tempo de cicatrizes
renúncias humedecidas no chão
de vidas imaginárias
máscaras
mandatárias de histórias
que não são as suas.

Ajusto o corpo aos contornos das palavras. Abrigam-me
algures
nos vidros da janela
e acrescentam ao silêncio
que me sobra
o sonho
[ou desengano
das molduras de afetos
[e de ausências
que me cabem dentro dos dias.

Brígida Luz


terça-feira, 14 de janeiro de 2014

A harmonia das sombras



Caminho por entre palavras
feitas de pormenores
pontas soltas de uma espécie
de narrativa desconjuntada
a derramar-se no ar frio
e húmido da noite.

A memória é um céu
a escurecer.
Isolada no nevoeiro das recordações
move-se
e retrocede
uma luz trémula e minúscula
concebida como semente
de esperança
bálsamo expectante
no meio da escuridão.

Releio o poema e sinto-lhe
a pele desabitada
como uma casa abandonada
no ocaso do tempo.

Não há espaços para o verbo. Os dedos
despenteiam sílabas arranhadas
pelo vento
relembram esquecimentos iludidos
de eternidade.

Como se a vida fosse
um fogo lento
por onde sobe docilmente
a harmonia das sombras.

Brígida Luz

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Contracurva


Foto de Stanislav Hricko


Poderei encontrar-te
no silêncio líquido que pelo crepúsculo
há de chegar.

Ou então
hei de procurar-te

[ refúgio, talvez ]

num fragmento de mim

ou

numa inflexão mais grave da voz. Porque
hoje
perco-me de ti no limbo
da palavra

no pulsar negro do horizonte
a suster
denso
o incontido
uivo da lágrima.

Brígida Luz

domingo, 29 de dezembro de 2013

A filigrana dos sonhos


Foto de Vuk Adzic

Penso em ti
à distância da voz
cíclica construção de azuis
aroma perfeito
a inventar promessas
inocentemente sufocadas
por dentro das veias.
Atravesso
a misteriosa filigrana
dos sonhos e apercebo-me
da luz a demandar
infinitos fugidios.
Dir-te-ei dos pássaros indomáveis
moldados nas lembranças.
Escrevo no olhar
ausências e regressos
e, em silêncio, retomo
o invisível gesto de amadurar o tempo
que me nasce dos dedos.

Brígida Luz

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Na lucidez dos ciclos


Imagem Google


Podemos romper paredes
trazer para dentro de casa
um rosto pele de musgo
sob a folhagem de um tempo ambíguo.

Esfregamos as pálpebras
a diluir nas nuvens
o que, na lucidez dos ciclos, poderia ter sido.

Não sei se nas paredes
se desdobram os ecos
ou ponteiros de relógios invisíveis.

As árvores dançam ao fundo da noite
e nem o doce brilho de dezembro
confunde a solidão que as habita.

Brígida Luz

domingo, 8 de dezembro de 2013

... e a palavra nasce


Foto de Marián Uhrín


Antever a luz
na arquitetura dos dias.

Despir as sombras, o vácuo
que adormece as veias

para atravessar o pólen extasiado
da manhã.

Ousar na pele
o toque dos pássaros

um bater de asas

a encostar o tempo
à serena cumplicidade do silêncio.

Consentir o corpo de luz
onde
leve
a palavra nasce

como seara de seda
na voz _talvez_ embaciada do olhar.

Brígida Luz

domingo, 24 de novembro de 2013

Página em branco




Sobra-lhe uma página em branco e não consegue lembrar-se de alguma vez ter tido, na infância, uma festa de Natal. Tivera, vagamente, uma festa de aniversário, na adolescência, aí pelos treze anos. Vagamente. Vultos, imagens que se perdem por entre espaços da memória, rápidas, traços de faróis a riscarem a noite do tempo.
Uma lâmpada suspensa no teto de madeira projetava uma luz amarelada sobre o tampo de mármore onde a mãe rendilhava a massa dos coscorões. Em cima de um banco, um alguidar com a massa das filhós. Já lhe tinham acrescentado o copo de aguardente, lembra-se desse pormenor, porque na tristeza aveludada dos seus olhos estendia-se uma confusa e vasta margem inclinada a pormenores. Mas não fazia perguntas, raramente estes preparativos lhe despertavam interesse ou curiosidade.
Com a última porção de massa, via a mãe recortar a “boneca”. Depois de frita, terminava a “consoada”, na noite de Natal.
Sobra-lhe uma página em branco. E o tempo parado, dentro da tristeza aveludada dos seus olhos. Retratos, rituais que poderão ter-se repetido, ano após ano, no meio do cheiro a fritos, debaixo daquela luz amarelada. E o silêncio, feito de tempo e de nomes, dentro dos olhos da mãe.
Depois, as doze badaladas, o sino a enrolar os corpos entranhados de dezembro. Os xailes pelas costas, um ou outro casaco, “a missa do galo”. Era já meia-noite, de uma noite de Natal que não refletia o brilho de luzes no silêncio dos rostos nem nos corpos dobrados, depois da canseira de mais um dia de trabalho árduo.
Sobra-lhe uma página em branco. E não consegue lembrar-se de alguma vez se terem sentado à mesa, em família, para uma ceia de Natal. O dia tinha-se movimentado à volta de muito trabalho, e não havia horas certas para comer. Ia-se comendo o que havia, conforme se podia.
Às vezes, adormecia nas escadas. Ligavam um patamar interior à mercearia, onde os pais atendiam os trabalhadores que arrastavam, nas botas enlameadas, os últimos raios de um sol que se punha, por detrás dos campos de cultivo de onde regressavam. Sentava-se no primeiro degrau, rente ao chão da loja e apoiava a cabeça nos braços em almofada, dois degraus acima. Assim adormecia. Só acordava, quando a mãe a chamava, para irem para a cozinha. O ritual dos fritos, na chaminé, dentro do silêncio preenchido pela luz amarelada. E o silêncio, feito de tempo e de nomes, dentro dos olhos da mãe.
Os xailes pelas costas. Os xailes cor-de-muitos-invernos-que-passaram e de todos os sonhos que a cor dos tempos fizera baixar os olhos para o chão. A missa. E depois, havia café. A água ainda a ferver que a mãe deitava em cima das filhós e dos coscorões. Saíam amolecidos, deliciosos, com o açúcar qua a mãe lhes espalhava por cima. Comiam-se os fritos e bebia-se café.
O tempo a deslizar, no lado em festa da memória.
Era já tarde, afinal, compreende-o agora, quando punham os sapatinhos na chaminé. E iam-se deitar.
De todos esses anos de sapatinho na chaminé, lembra-se de uma “prenda no sapatinho” que jamais algum tempo apagará. O véu azul. Aquele véu azul que, a partir desse Natal, passou a ser a estrela que a guiava à missa, todos os santos domingos. Entre tantos véus pretos, entre tantos véus brancos, aquele véu azul-céu era a melhor festa de Natal que o amor do Menino Jesus alguma vez lhe deixara no sapatinho.
O tempo a deslizar, no lado em festa da memória.

BL