sexta-feira, 18 de outubro de 2013

No coração do silêncio



Partilhamos solidões. Saímos
pela neblina das manhãs
na memória dos rumos
que nos transportam ao coração do silêncio.

Entrelaçamos cidades

sentados na orla das imagens
que atravessam as raízes do ventre da casa.

Como se dobássemos o fio do tempo

para alimento das palavras
que enchem os olhos de verdade

quando sopros de saudade se encontram
face a face

por dentro.

Cercamo-nos da luz desprevenida
dos poentes

com os olhos a rasgarem
a convulsão dos longes

em que outubro vai gotejando.

Brígida Luz

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Pelos dias que passam



Ainda que longe
dizes-me por dentro as árvores
que são as tuas. A chuva triste

ou o silêncio que transportas
nas tuas mãos cansadas

quando os olhos te seguram as estrelas
dia após dia

e o vento traz a noite

ou searas improváveis

por onde se perde
longe

tão longe

o tempo da casa.

Brígida Luz

Pelos dias que passam



Ainda que longe
dizes-me por dentro as árvores
que são as tuas. A chuva triste

ou o silêncio que transportas
nas tuas mãos cansadas

quando os olhos te seguram as estrelas
dia após dia

e o vento traz a noite

ou searas improváveis

por onde se perde
longe

tão longe

o tempo da casa.

Brígida Luz

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Enquanto o sol não vem

Foto de Gao dongyang - "Morning"



E deixo a obliquidade das horas
entranhada em palavras sonhadas

para me subentender na circunscrição
dos espaços.

Passeio o olhar pelas coisas inexplicáveis
a envelhecerem no lado mais obtuso do silêncio

enquanto vejo janelas indefesas a tombarem

condicionadas pelas cinzas dos significados
irreversivelmente adiados.

Porque na queda desnuda do rosto
imprescindível de ti o gesto

a suster a voz do tempo despojado.

Brígida Luz

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Perfis de setembro

Foto de Radu Voinea
No olhos, uma trajetória
ainda inclinada ao prolongamento da cor. Um lugar
abrigado no eixo dos pássaros, onde palavras ociosas
respiram os rituais das árvores
e transportam nos dedos a geografia de um cais.

Chegam, em linha reta, os novos perfis
de setembro, como línguas de vento
a anunciarem os primeiros contrastes
dos regressos.

Conheço a oscilação da luz e sei
que é inevitável adiar a limpidez do silêncio.
Irremediavelmente renovar as tintas disponíveis
e os gestos desdobráveis

sobre o equilíbrio volátil
de um tempo exilado
na periferia das primeiras águas.

Brígida Luz

sábado, 14 de setembro de 2013

Para lá do olhar




Como se pudéssemos colocar
na mão do pintor
o halo de luz
e a paleta de cores
com que entramos oceano adentro

e na memória de uma flor
lhe inventássemos o olhar.

Para que não fosse
demasiado tarde
para segurar as pedras
dos rios que correm.

Brígida Luz