quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Serenamente, o silêncio



Passeio os dias
a curar a acidez dos espelhos. Palavras de água
abrigam sombras transitórias e são
talvez
à vez
degraus de espuma
ou estalidos do tempo.

Crepúsculos de adolescência cantam
a pele do vento
em longínquos horizontes de mar.

Há ilhas de agosto
a soprar a solidão da pedra
em olhos repletos de verdes conformados

a preparar a linguagem da casa
para a jornada seguinte.

Depois
serenamente

o silêncio.

BL

sábado, 3 de agosto de 2013

Sabor a mar



Aceito todas as dúvidas que me atravessam
nos nomes concretos que me prendem às manhãs.

Quase sempre antecipo um anel de sol
a evitar a migração dos pássaros.

Adentro-me pelas marés
e deixo-me alcançar pela espuma do tempo
a arrastar-me para longe das escarpas.

Recordo os vagalumes que refulgiam das areias
o silêncio das águas que nos tinham
a sede inesgotável onde cabíamos.

Quem mutilou o ondular do vento
as palavras da noite em inconfessos movimentos de linho?

Admiro as árvores que aceitam vestir-se de outono;
conjugam o amor e sabem a.mar em todas as estações.

Brígida Luz

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Enquanto não voltares



Despeço-me de ti e fico
a ver-te, ao longe, quando partes.
Misturam-se as paredes de betão
e esbatem nos meus olhos
a plena nitidez dos movimentos.
Aceno laivos de saudade liquefeita
em sílabas vagarosas
e sopro-te um sorriso

[ simbiose de raízes e imagens afastadas ]

que flutuará no poema
enquanto não voltares.

Brígida Luz

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Retrovisor


Ajeito o espelho e deixo
que o tempo se desdobre em paisagens e destinos
até onde o olhar me sobra.

Dilui-se na lonjura o arvoredo
e é quase vã a esperança de encontrar
a margem da planura
onde
por esta altura
profundo e quente o silêncio cantaria.

Subtraio ao chão que piso o pensamento
e neste viajar entre espaços imprecisos
e pedaços de incertezas peregrinas
deslizo os dedos pela luz das madrugadas
ou memórias rendilhadas de charneca e neblinas.

Ajeito o espelho. O gesto é vagaroso e delicado
a consertar as horas
peça a peça
a descalçar o tempo
que recomeça.

E é neste pó de verão que
hoje
eu prossigo o meu percurso.

Brígida Luz

domingo, 28 de julho de 2013

Abandono


Hoje, cai uma chuva
miudinha.

Uma murrinha
teimosa e lenta.

E eu imagino
que poderia passar,
incólume,

[como quem foge a penosa imobilidade]

entre os silêncios
desta poalha

insensível e
cinzenta…

Tão visível
é a minha

invisibilidade.

Brígida Luz


sábado, 20 de julho de 2013

Monólogo



O branco da noite
a entornar-se na folha.
A projetar nas paredes
fagulhas da memória,
sombras exaustas,
tentativas de reler sentidos em crenças interrompidas.

Ardem-me nos olhos os lugares
onde as árvores sobrevivem.

Cola-se ao interior das mãos
um refúgio da solidão,
uma história de conchas improváveis.

E a página desdobra-se,
lentamente,
sobre nostalgias adormecidas
e diálogos que suspendi em frestas de esquecimentos
ou no descampado dos dias.

Volto-me então para a luz secreta
de um tempo que dorme no calendário do meu corpo
e engano outonos anacrónicos
no monólogo que me resta
no lado de dentro das palavras.

Brígida Luz


quarta-feira, 17 de julho de 2013

Estes versos são o mar



Sem o prever
os olhos regressam ao silêncio das águas
avançam sobre a limpidez da manhã

como dedos a procurar a luz
ou um sopro de vida
a (re)vestir o verso.

Fecham os últimos caminhos de sombra
entregam-se como brisas

subitamente sol
e corpo
na pulsação do mar.

Porque estes versos são o mar. E há tanto mar
a poder ser grito, pássaro, flor
ou cor estridente.

Há tanto mar para ser navio
e sonhar o tempo.

Brígida Luz