quinta-feira, 11 de julho de 2013

Rasuras



Rasurando desalinhos. Ferrugens
estéreis
na linguagem intransponível
dos olhos. A mente
em fuga
no atropelo do corpo.

Poeiras de desmemórias
ou encriptação dos afetos?

Na inconformidade dos dedos
reescrevo as horas permeáveis
à proximidade da pele. Como se não
se tivesse esgotado
um tempo que aconteceu. Livre.
E imensurável. Desconstrutor de margens
dentro de nós.

Entre os destroços, decerto
encontrarei um abrigo remendado de palavras.

Brígida Luz

quarta-feira, 10 de julho de 2013

in memoriam




                       [Mãe, cada palavra que me ensinaste repete mil vezes o teu nome.]*

                           *José Luís Peixoto.

terça-feira, 9 de julho de 2013

Maquinal_mente


Dói-me a inocência da pele, atravessada
por um beijo na face,
como se fosse o toque frio
de um inverno que se prolongasse
para lá do tempo ruidoso do silêncio,

um traço igual a qualquer beijo na face
num gesto amorfo de ninguém.

Gostava de ter ainda o sorriso onde se dissolviam paradoxos
ou espaços embaciados de sal. Onde
a transparência dos olhos nomeava a intimidade
dos rostos

e a pura articulação da voz permanecia
até onde se lançavam as nossas mãos.

Brígida Luz

sexta-feira, 28 de junho de 2013

A aposta



Este gesto de estender os ramos
e afundá-los nas palavras. De, em versos, esculpir
entendimentos e recomeços,
de mil vezes apostar na pedra
e persistir mil vezes, sob
os escombros em queda.


Este gesto de sair do tempo,
ou esvaziar espelhos previsíveis. De invocar
imagens antigas, à superfície
dos lábios
e grafitar manhãs em sons de pássaros,
para te oferecer.


Brígida Luz

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Luz




Escrever a luz que eu
sou em cada flor
em cada pedra


ou gota de água.

Ou na quietude
da magnólia
a sussurrar-me p’ra dentro
um aroma branco
acetinado


serenado de entendimentos.

Eu poderia ser
essa magnólia
esta manhã. Porque esta manhã
não há vento
nem nuvens


e é verde-luz
o silêncio
esculpido nos ramos das árvores.


Brígida Luz

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Da habitabilidade dos corpos



Acredito que a palavra existe,
para lá da imobilidade do olhar,
nos momentos em que a tua voz desliza,
branda e quente, a entranhar-se
na sede das mãos. Ouço-a
e acorda-me o tempo, por baixo da pele,
num amálgama de cinzas luminosas.
Diria que, nos teus dias
de esquecimento, transportas somente
uma parte de ti e que nas veias
te cresce ainda
a árvore das boas memórias.  Porque
a carne segue raízes de sangue
e de lágrimas
e a luz brota de dentro, a refazer os corpos
em espaços habitáveis, ou a moldar
o gesto informe do silêncio.

Brígida Luz

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Intermitências



Anoitece
a folha onde escrevo,
sustentáculo de dias de água
e primaveras dissimuladas,
vazios ambíguos, preenchidos
por hipóteses
ou intuição.
Talvez um espaço,
num tempo de permeio,
antes do agasalho da memória. Quando a voz,
ainda rouca,
oscila entre a aproximação
do olhar
e o silêncio do gesto entrelaçado
da palavra.
Indistinta, no voo indecifrável
das imagens,
demoro o corpo na ramagem
liquefeita
e fico à espera. Hei de recolher a manhã
nas minhas mãos.

Brígida Luz