sábado, 8 de junho de 2013

Urgência




Esta manhã é uma claridade cinzenta. Talvez por isso
sejam cinzentas
ou mesmo invisíveis
as sílabas que sobram
da ausência da voz.


Nos olhos
um insondável cenário de argila
a urgência de um afago do tempo
com o sabor transparente das palavras.


Tudo quanto resta
são ecos exaustos das águas estáticas
de um mar desarticulado
onde reúnes a travessia do mundo
nessa densidade dispersa no centro de ti.


Mas p’ra lá das margens do corpo
existe ainda algum sol
entre o pousio das marés.


Na libertação do silêncio
quando as memórias tocarem as coisas simples
em que tu e eu éramos apenas nós os dois.


Brígida Luz

domingo, 2 de junho de 2013

A linguagem do sol




Nunca soube onde guardar o silêncio
que surge numa tarde vagarosa
em que o sol tem tantas palavras para dizer.


Palavras que entreabrem a janela da tarde
e deixam que o tempo atravesse a rua de água doce
onde os rostos se debruçam
e as vozes pronunciam os nomes
em que as memórias persistem.


Pouco sei das palavras do sol. Pouco sei.

Entrego as minhas mãos ao silêncio da tarde
inclinada sobre a folha em branco.


Olho-me agora no verde das árvores
num esforço vertical
para me reconhecer.


Pouco sei das palavras do sol. Pouco sei.

Brígida Luz

sábado, 1 de junho de 2013

Se eu chegar tarde à primavera



Se eu chegar tarde à primavera,
mostra-me onde fica a luz que resta
do inverno que dói
nas fendas da pele,


ou do vento
que geme ladainhas inexatas.


Se eu chegar tarde à primavera,
mostra-me onde fica
a chama da manhã no exílio dos pássaros,


ou então o silêncio profundo
da fusão das almas, na mortalidade
do tempo breve em que germina a sede
inútil e imprecisa, que antecede
o verão que há de chegar.


Brígida Luz

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Lamento



Eras o tempo em que guardei todas as chaves
dos segredos que nos sabiam dentro,
como quem entrega o chão e confia o corpo
à linha azul que dos teus olhos partia


e me era leito,
e rio,


de abrigo, o porto.

Mas quando a cor avermelhou a madrugada
e o sopro dos teus lábios tocou os meus cabelos,
de abril seria a flor que então murchou.


Ao arrepio do tempo,
a dor,
o lamento,


a utopia,
a raiz sonhada.


Brígida Luz

sábado, 25 de maio de 2013

A insubmissão do silêncio




Longe de tudo
a insubmissão do silêncio
o azul a escrever o espanto da alma
um grito profético de maré calma
em acordes de tarde faminta de vermelho.

Longe de tudo
o coração a escutar o avesso-barco do espelho
as palavras a traçarem um canto de espuma
a vertigem da luz na memória dos dedos
a calar o pranto das águas.

Brígida Luz