sábado, 1 de junho de 2013

Se eu chegar tarde à primavera



Se eu chegar tarde à primavera,
mostra-me onde fica a luz que resta
do inverno que dói
nas fendas da pele,


ou do vento
que geme ladainhas inexatas.


Se eu chegar tarde à primavera,
mostra-me onde fica
a chama da manhã no exílio dos pássaros,


ou então o silêncio profundo
da fusão das almas, na mortalidade
do tempo breve em que germina a sede
inútil e imprecisa, que antecede
o verão que há de chegar.


Brígida Luz

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Lamento



Eras o tempo em que guardei todas as chaves
dos segredos que nos sabiam dentro,
como quem entrega o chão e confia o corpo
à linha azul que dos teus olhos partia


e me era leito,
e rio,


de abrigo, o porto.

Mas quando a cor avermelhou a madrugada
e o sopro dos teus lábios tocou os meus cabelos,
de abril seria a flor que então murchou.


Ao arrepio do tempo,
a dor,
o lamento,


a utopia,
a raiz sonhada.


Brígida Luz

sábado, 25 de maio de 2013

A insubmissão do silêncio




Longe de tudo
a insubmissão do silêncio
o azul a escrever o espanto da alma
um grito profético de maré calma
em acordes de tarde faminta de vermelho.

Longe de tudo
o coração a escutar o avesso-barco do espelho
as palavras a traçarem um canto de espuma
a vertigem da luz na memória dos dedos
a calar o pranto das águas.

Brígida Luz

domingo, 19 de maio de 2013

Lá fora, é maio



Refém de um lado lunar,
que me prende os olhos na cal branca
da fachada centenária que desce a rua deserta,

cada passo que me leva
repisa os limites de uma folha morta,
enquanto as veias, desatinadas, explodem em gritos
de saudade e muros de melancolia
tanta.

E o céu, tão baixo, tão baixo,
a enregelar-me a pele, a circunscrever- me a visão
ao peso de tão infinitos nadas.

É domingo à tarde, num calendário afónico
e transido de medo, porque, lá fora,
é maio e a primavera canta.

Brígida Luz
19.05.13

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Decifração




Fazer destas paredes a folha em branco
dedos de árvores a pintarem um tempo nu
uma porta de entrada
um recomeço de vozes
ou de palavras


_sabe-se lá_

Fazer deste momento uma lentidão
a passar-me pelas horas
um céu suspenso na imensidão azulada
uma serena linguagem de mar
longínqua viagem de gaivotas


_ou o manto inocente do silêncio que me rodeia_

Brígida Luz

quarta-feira, 15 de maio de 2013

No lado suspenso da manhã



E é quando a memória às vezes é ruído,
fissura nos lugares onde
o corpo é voz, cintilação do verbo.


E é quando os olhos são idas da pele e
dos dias,
ausências sem regresso,
cicatriz subterrânea das esperas
sem mapa.


E é quando uma luz tranquila entreabre
a janela do quarto
e o audível silêncio alcança a viagem
do tempo
e permanece cor,
no lado suspenso da manhã.


Brígida Luz