Fazer destas paredes a folha em branco
dedos de árvores a pintarem um tempo nu
uma porta de entrada
um recomeço de vozes
ou de palavras
_sabe-se lá_
Fazer deste momento uma lentidão
a passar-me pelas horas
um céu suspenso na imensidão azulada
uma serena linguagem de mar
longínqua viagem de gaivotas
_ou o manto inocente do silêncio que me rodeia_
Brígida Luz
E é quando a memória às vezes é ruído,
fissura nos lugares onde
o corpo é voz, cintilação do verbo.
E é quando os olhos são idas da pele e
dos dias,
ausências sem regresso,
cicatriz subterrânea das esperas
sem mapa.
E é quando uma luz tranquila entreabre
a janela do quarto
e o audível silêncio alcança a viagem
do tempo
e permanece cor,
no lado suspenso da manhã.
Brígida Luz
As águas desalinhadas
a correrem nos andrajos do tempo
que oscila
suspenso
encharcado
no desconforto das árvores.
A voz rouca do vento
a plantar mitos e luas
sob a melancolia da pedra.
A luz
dispersos fios de sol
em tarde árida
a arrastar um vazio de nada
para dentro do verso.
O silêncio da escrita
ou o insustentável cansaço
da palavra gasta
no inverno tão sem fim
das longas esperas.
Brígida Luz
Confunde-me esta distância
entre as palavras, o desconforto dos olhos
quando os silêncios
caem no chão. É quase um mito desfeito
nas profundezas do espelho, um nó
no brilho dos girassóis.
Em boa verdade, ando por aqui,
os dedos entrelaçados na tua ausência,
suspensa de contornos de incertezas
ou de fascínios da imaginação.
Por isso, escrevo,
espreitando a metamorfose dos dias
a transfigurar os medos,
no lado invisível das horas.
Brígida Luz
Hoje, quero entender o ondular das tuas palavras,
sussurros impalpáveis da noite,
longa e indistinta,
em que abrigas o cântico da tua solidão.
Permaneço aqui, porque procuro
o entendimento,
por dentro do olhar do que não dizemos
e atravesso os limites da espessa cicatriz,
a projetar no verso o equilíbrio da luz.
Hoje, quero entender na crispação do teu rosto
os traços imprecisos da tua esmaecida liberdade,
a enganar a lágrima que te rasga na pele
as raízes da alma.
Hoje, vou ficando. Dissolvendo o tempo
em sílabas de lucidez,
de onde todos os meus passos regressam.
Brígida Luz
O silêncio poisa
confuso
no sobressalto
das aves. Ouço-lhe os gemidos
escuros e frios
entranhados na chuva
e no vento.
Demora-se
na obliquidade da noite
como se tivesse medo
de se render
por detrás da incerteza das palavras.
Desafia os espaços vazios
que os meus olhos projetam
nas paredes da sala
ou as sombras
que o meu corpo vai deixando
na melancolia do tempo.
Dentro de mim
o silêncio. Não sei se na íntima palidez do horizonte
ou no choro dormente
de um significado primordial
a deslizar-me por entre os dedos.
BL
Há um cansaço líquido a pesar
nos ramos das árvores. De dentro dos muros
uma voz de ave acena segredos
guardados nas pontas dos dedos.
Não sei se foi um sopro
pressentido por mero acaso
ou erro humano.
Talvez um vazio profundo
a passear rumores noturnos
ou apenas a vontade de estender
as mãos para além do corpo.
Ou um silêncio sem rosto
paradoxo de sílabas baloiçando memórias
a escrever o presente
num calendário qualquer.
Brígida Luz