Como se as ruas fossem rostos de silêncio
sem portas sem janelas
e os passos se juntassem na inquietação da manhã.
Sei de mim a desordem do tempo
na epiderme dos dias
e o nada que resta dentro dos nomes
em que me desdobrei.
Tantas coisas se passam dentro da palavra
e nas mãos entorpecidas grades retorcidas
a esmagarem o verso
olhares indecifráveis
amarrados às raízes da noite.
Hoje sei de mim o sabor silvestre
nos lábios da memória
debaixo de sete palmos de terra.
Brígida Luz
às vezes sobram-me espaços
entre a voz e o interior da luz
o corpo
indizível
entre musgos e espigas
e as mãos
imóveis
caídas ao longo do sonho
depois
a entrada do olhar
na insónia dos rios
e a nudez da memória
em queda
cativa da noite
e das marés do tempo áspero
singrando esperas
no silêncio das aves.
Brígida Luz
E percebi o abandono
das sementes do céu
das velas de agosto
e os rios a correrem
à altura das lágrimas.
Já aqui não estou
percebi
caminho por dentro de um sufoco
cortado pelo meio
durmo com o barro da infância
com a solidão das árvores
que aceitaram vestir-se de inverno.
Que horizonte é este
que leva os meus olhos por dentro?
Dói-me a luz
sombra da memória
a escorrer do tempo
como se chamasse pelas pedras
como se batida pelo vento.
Brígida Luz
Nada te conto
destes muros do silêncio
em que reconto as areias do tempo
ou do oásis onde me encontro
a coabitar os círculos concêntricos
da inquietude dos pássaros.
No meio do silêncio
são tantas as cores dos sussurros do vento
e a luz
estátua de pedra
alheia à infinitude do verbo.
E dentro de mim
o tempo exposto
a tarde a cair
lenta
fria
a esculpir a cadência da chuva
rumor de metáforas
e de metonímias.
Brígida Luz
Suspenderia o tempo
nas flores de miosótis em que tecias o azul das tardes
e a limpidez dos teus olhos vertia na minha pele
a luz onde a estrada começava
e crescia
a (en)formar o gesto
e a palavra.
Escutavas os meus cansaços
entre o perto e a lonjura
das minhas assimetrias
e nas tuas mãos de abrigo eu sentia
o tronco da sabedoria
quando às minhas verdades inteiras
tu sorrias
tu sorrias.
Por vezes sabe-me a lodo
a estrada
derrama-se pelo chão a linha do horizonte
consomem-se os dias
por entre a nostalgia da terra molhada.
Ajusto o tempo à memória
e na textura da tua voz
regresso à doçura da casa
no silêncio de um tempo de raízes e regaços
que flutua na poeira dos meus passos
entre as rugas do crepúsculo
e os escombros das esperas.
Brígida Luz
Ah, a noite!
inexorável
clamor
da imensa escuridão
que me agarra
torpor
de uma vontade
inadiável
que se apaga.
Brígida Luz
Caminho por dentro da palavra
e declino-a
no habitáculo do silêncio
onde te sei
[ permanência ]
na sombra lenta das horas.
Na arte do esquecimento guardas
os fios da memória e os restos
do rio em que aninhaste
o desejo
fértil
e vernáculo
de ser mar.
Caminho por dentro do silêncio
e sonho-te árvore
ramos a esculpirem o tempo
e os teus olhos de água
a entrarem por dentro da alma
a lerem na luz
a simplicidade
dos regressos.
Brígida Luz