quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Rostos de silêncio



Como se as ruas fossem rostos de silêncio
sem portas sem janelas
e os passos se juntassem na inquietação da manhã.


Sei de mim a desordem do tempo
na epiderme dos dias
e o nada que resta dentro dos nomes
em que me desdobrei.


Tantas coisas se passam dentro da palavra
e nas mãos entorpecidas grades retorcidas
a esmagarem o verso


olhares indecifráveis
amarrados às raízes da noite.


Hoje sei de mim o sabor silvestre
nos lábios da memória


debaixo de sete palmos de terra.

Brígida Luz

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

... a espaços



às vezes sobram-me espaços
entre a voz e o interior da luz


o corpo
indizível
entre musgos e espigas
e as mãos
imóveis
caídas ao longo do sonho


depois
a entrada do olhar
na insónia dos rios


e a nudez da memória

em queda

cativa da noite
e das marés do tempo áspero


singrando esperas
no silêncio das aves.


Brígida Luz

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O barro da infância



E percebi o abandono
das sementes do céu
das velas de agosto


e os rios a correrem
à altura das lágrimas.


Já aqui não estou

percebi

caminho por dentro de um sufoco
cortado pelo meio


durmo com o barro da infância

com a solidão das árvores
que aceitaram vestir-se de inverno.


Que horizonte é este
que leva os meus olhos por dentro?


Dói-me a luz
sombra da memória
a escorrer do tempo


como se chamasse pelas pedras
como se batida pelo vento.


Brígida Luz

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Invernia


Nada te conto
destes muros do silêncio
em que reconto as areias do tempo


ou do oásis onde me encontro
a coabitar os círculos concêntricos
da inquietude dos pássaros.


No meio do silêncio
são tantas as cores dos sussurros do vento
e a luz
estátua de pedra
alheia à infinitude do verbo.


E dentro de mim
o tempo exposto
a tarde a cair
lenta
fria
a esculpir a cadência da chuva
rumor de metáforas
e de metonímias.


Brígida Luz

sábado, 24 de novembro de 2012

Carta a minha mãe



Suspenderia o tempo
nas flores de miosótis em que tecias o azul das tardes
e a limpidez dos teus olhos vertia na minha pele
a luz onde a estrada começava
e crescia
a (en)formar o gesto
e a palavra.


Escutavas os meus cansaços
entre o perto e a lonjura
das minhas assimetrias
e nas tuas mãos de abrigo eu sentia
o tronco da sabedoria
quando às minhas verdades inteiras
tu sorrias
tu sorrias.


Por vezes sabe-me a lodo
a estrada
derrama-se pelo chão a linha do horizonte
consomem-se os dias
por entre a nostalgia da terra molhada.


Ajusto o tempo à memória
e na textura da tua voz
regresso à doçura da casa
no silêncio de um tempo de raízes e regaços
que flutua na poeira dos meus passos
entre as rugas do crepúsculo
e os escombros das esperas.


Brígida Luz

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Eterna nostalgia


Ah, a noite!
inexorável
clamor
da imensa escuridão
que me agarra


torpor
de uma vontade
inadiável
que se apaga.


Brígida Luz

Da simplicidade dos regressos



Caminho por dentro da palavra
e declino-a
no habitáculo do silêncio
onde te sei


[ permanência ]

na sombra lenta das horas.

Na arte do esquecimento guardas
os fios da memória e os restos
do rio em que aninhaste
o desejo
fértil
e vernáculo
de ser mar.


Caminho por dentro do silêncio
e sonho-te árvore
ramos a esculpirem o tempo
e os teus olhos de água
a entrarem por dentro da alma
a lerem na luz
a simplicidade
dos regressos.


Brígida Luz